O livro das citações: um breviário de ideias replicantes
Antologia organizada por Eduardo Giannetti. As citações guardadas daqui aparecem abaixo.
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Não há consolo mais refinado na velhice do que a sensação de ter concentrado toda a força de nossa juventude em obras que jamais envelhecerão.
Frase de Arthur Schopenhauer sobre a velhice e as obras que não envelhecem, reunida por Eduardo Giannetti em O livro das citações.
O homem magnânimo deseja ocupar-se de apenas poucas coisas, e estas têm de ser verdadeiramente grandes a seus próprios olhos, e não porque outros assim pensem. Para o homem dotado de uma alma grande, a opinião solitária de um único homem bom conta mais que a opinião de uma multidão. Foi o que disse Antífon, após a sua condenação, quando Agatão o cumprimentou pelo brilho de sua autodefesa.
Passagem atribuída a Aristóteles sobre o homem magnânimo e o peso da opinião de um único homem bom, reunida por Eduardo Giannetti em O livro das citações (Companhia das Letras, 2008).
No coito, o homem se rebaixa ao nível do animal, não porque tem prazer, mas porque obedece ao instinto de reprodução. Existe um meio de escapar a esse triste destino. É a filosofia. Se a maioria dos filósofos era solteira, foi para testemunhar que o fim último da humanidade não é reproduzir-se. Nós não somos cães, não somos paramécios, não somos coelhos. A filosofia é a afirmação de que existe uma maneira não sexual de se perpetuar. As heranças filosóficas dispensam os genes.
Passagem de La Vie sexuelle d'Emmanuel Kant (1999), de Jean-Baptiste Botul, com apresentação e notas de Frédéric Pagès, reproduzida em O livro das citações, de Eduardo Giannetti.
Dada a natureza competitiva das vendas no mercado, o público é necessariamente o juiz dos produtos do trabalho. Mas o público não dispõe de nenhum conhecimento especializado particular e julga de acordo com a aparência de qualidade. Como resultado, a arte de produzir aparências (e talvez o gosto) está fadada a avançar sob o domínio do mercado competitivo, enquanto a qualidade dos produtos declina.
Citação de Friedrich Nietzsche atribuída por Eduardo Giannetti a Além do Bem e do Mal, obra publicada em 1886.
agatão: Que é isso, Sócrates? Certamente você não supõe que eu esteja enfeitiçado pelo teatro a ponto de ignorar que para um homem sensato um pequeno número de sábios impõe maior respeito que uma multidão de ignorantes. sócrates: Realmente, Agatão, eu não faria bem em formar uma opinião depreciativa a seu respeito; bem sei que, caso você se encontrasse com pessoas sábias, você se preocuparia mais com o que elas pensam do que com a multidão.
Passagem de Platão situada em O banquete, diálogo do século IV a.C.; o trecho foi extraído de O livro das citações, de Eduardo Giannetti, publicado em 2008.
Une réserve de locutions toutes prêtes… qui nous délivrent du soin de penser
Da conferência Le Bilan de l'intelligence (16 jan 1935, recolhida em Variété III, 1936). Trazemos um estoque de locuções de pura imitação que nos poupam de pensar e tomamos por soluções nossas.
A curiosa semelhança de família de todo filosofar indiano, grego e alemão tem uma explicação simples
De Para Além de Bem e Mal §20 (1886). Nietzsche explica a semelhança entre as filosofias indiana, grega e alemã pelo parentesco linguístico: a gramática comum guia, sem que se perceba, o curso dos sistemas.
Há filósofos que são, em resumo, tenores desempregados
Frase do capítulo X de Dom Casmurro (1899). Bento Santiago, aceitando a teoria da vida-ópera do tenor Marcolini, conclui que filosofa quem já perdeu a voz.
Os filósofos metafísicos são músicos sem habilidade musical
Frase de Carnap em ensaio de 1932 do Círculo de Viena: a metafísica seria expressão de uma atitude diante da vida, como a arte, porém em meio inadequado — o metafísico é o artista que não tem o dom.
A invenção até mesmo do mais simples adjetivo precisou de mais metafísica do que estamos aptos a estar cientes
Passagem do ensaio de Adam Smith sobre a origem das línguas (1761): nomear a cor 'verde' já exige abstrair a qualidade da substância, e por isso o adjetivo mais banal pressupõe metafísica.
O excesso de leitura priva a mente de toda a elasticidade, assim como a contínua pressão de um peso afrouxa uma mola. A maneira mais segura de jamais ter sequer um pensamento próprio é apanhar um livro toda vez que se tem um tempo livre. A prática desse hábito é a razão por que a erudição torna a maioria dos homens mais enfadonhos e tolos do que são por natureza, e priva os seus escritos de toda efetividade. Nas palavras de Pope, eles estão "para sempre lendo, jamais sendo lidos". [...] O homem que pensa por si mesmo busca as opiniões das autoridades só depois de ter adquirido suas próprias opiniões e meramente como confirmação delas, ao passo que o filósofo livresco começa com as autoridades e constrói suas opiniões coletando as opiniões dos outros: sua mente está para a do primeiro assim como um autômato está para um homem vivo. Uma verdade que foi apenas aprendida adere a nós somente como um membro artificial, um dente falso, um nariz de cera ou, no máximo, uma pele transplantada. Mas uma verdade conquistada pelo próprio pensamento é como um membro natural: só ela realmente nos pertence. Isso define a diferença entre um pensador e um scholar.
De Parerga und Paralipomena II, cap. XXII, §§258 e 260 (1851). Leitura em excesso atrofia o pensamento próprio; a verdade conquistada pelo raciocínio é membro natural — a meramente aprendida, prótese.
O que quer que um outro disser bem, é meu
Sêneca, em carta a Lucílio, justifica que toda boa formulação alheia lhe pertence, reconhecendo logo depois que mesmo essa frase já fora dita por Epicuro.
