#Naruhodo
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Por que ficamos entediados? (Naruhodo #397)
Cinco anotações do Naruhodo #397 sobre o tédio: de Kierkegaard (raiz de todo o mal, rotação de culturas, intensivo × extensivo) à ligação entre tédio e atenção.
O futuro do conhecimento e usar os dois pés para andar
No fecho, sobre o quadro de Rafael: Aristóteles aponta para baixo e convida a usar os dois pés para andar — as quatro causas como técnica de integração do conhecimento, não verdade absoluta.
A causa final que só os outros descobrem
A causa final do indivíduo só se revela postumamente, aos que ficam; daí o existencialismo de Sartre e, na espécie, a seleção natural como causa final.
Penso, logo existo: a depressão como perda da causa eficiente
A causa eficiente do comportamento é o próprio agir; numa ponte com o cogito, a depressão é lida como perda da causa eficiente — deixar de agir é deixar de se reconhecer.
O deus platônico de cada área do saber
A fragmentação disciplinar é um retorno a Platão: cada área ganha seu deus absoluto — Weber, Darwin, Newton — sob cujo jugo o entendimento da realidade fica preso a poucas causas.
Educação para o trabalho, não para o saber
Como método, as quatro causas organizam o pensamento; mas a educação voltada ao trabalho fragmenta o saber em disciplinas e abandona a técnica aristotélica de estudar em função do problema.
As quatro causas de Aristóteles
Pelo exemplo da cadeira, Aristóteles enumera as quatro causas — material, formal, eficiente e final — cuja combinação constitui uma tecnologia para explicar qualquer fenômeno.
Gostar de alguém é habilidade, não sentimento
Gostar de alguém não é sentimento, é habilidade: o que importa não é dizer, é fazer. Daí a banalização do 'eu te amo', fácil de falar e difícil de bancar — a grande mensagem do episódio.
Não há sociedade pura: o inteligente, o burro e a morte
A pessoa inteligente vive para dentro e a burra para fora, mas cada um carrega os dois: por isso não há sociedade puramente coletivista ou individualista, e só a morte unifica o mundo multicultural.
A grande competência: lidar com a ambiguidade
Mais que soft ou hard skills, a competência decisiva é entender a ambiguidade de um mundo complexo, desigual e injusto e, ainda assim, cultivar gratidão por viver — o conflito de uma sociedade mista.
Pensamento holístico aceita a ambiguidade
O pensamento coletivista é holístico e intuitivo — pensa o todo, não as partes — e admite a ambiguidade: se A é verdade, não-A também pode ser, porque o que importa é colaborar com o grupo.
Teoria da subsistência: arroz versus trigo
A teoria do estilo de subsistência, de um artigo de 2014 na Science, deriva sociedades coletivistas e individualistas do cultivo de arroz versus trigo em dezenas de províncias chinesas.
Coletivismo prospera onde há menos recursos
O coletivismo é mais vantajoso na escassez, quando dividir mantém o grupo; China, Japão e Coreia mostram que enriquecer não leva necessariamente ao individualismo, refutando a velha teoria evolutiva.
Pluralidade exige abrir mão da própria felicidade
Conviver com gente diferente exige abrir mão da própria felicidade para se colocar no lugar do outro; o coletivismo dá suporte social e menos solidão, ao custo de menos abertura ao novo.
Alocentrismo: agir sem calcular o olhar alheio
O comportamento alocêntrico, típico de sociedades coletivistas, não é calcular o olhar alheio: é um modo de ação que nem passa pela consciência, como mostra o costume chinês de designar o lugar à mesa.
