#Morte
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Todos morrem. Os ricos e os pobres, os inteligentes e os estúpidos
Constatação igualitária em 'Incidente em Antares' (1971). A morte como única equalização de uma sociedade que o romance retrata como hierárquica.
A progressão social repousa essencialmente sobre a morte
Tese sociológica em 'Incidente em Antares' (1971). Os vivos são sempre governados pelos mortos, e o romance dos defuntos insepultos é, em parte, sua ilustração.
O médico sai do quarto n.º 122
Primeira linha de 'Olhai os Lírios do Campo' (1938). Abre o romance numa cena hospitalar que será desvelada como o leito de morte de Olívia.
Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria
Frase final de Memórias Póstumas (cap. CLX, 'Das Negativas'). Brás Cubas balanceia a vida e fecha com a única negativa que considera ganho — a interrupção da cadeia humana.
Matamos o tempo; o tempo nos enterra
Aforismo do capítulo CXIX de Memórias Póstumas. Brás Cubas inverte a expressão coloquial 'matar o tempo' (ocupar o ócio) e mostra a assimetria entre verbo metafórico e verbo literal.
Sou um defunto autor, para quem a campa foi outro berço
Capítulo I de Memórias Póstumas, justificando a inversão do começo. O narrador defende a escolha de abrir pelo fim — o sepulcro como novo nascimento — e prefere a fórmula 'defunto autor' a 'autor defunto'.
Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas
Dedicatória de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). Inverte o destinatário convencional da dedicatória — não a um leitor vivo, mas ao verme que come o cadáver — e anuncia a chave do livro.
Nous ne courons pas vers la mort, nous fuyons la catastrophe de la naissance
De De l'inconvénient d'être né (1973). Não corremos em direção à morte, fugimos da catástrofe do nascimento.
Va vingt minutes au cimetière
De entrevista a Salmagundi (1994). O conselho recorrente de Cioran a desesperados: meia-hora num cemitério vale mais que um médico.
La mort est trop exacte ; toutes les raisons sont de son côté
De Précis de décomposition (1949). A morte como o exato; a vida como o grande desconhecido. Inversão da hierarquia comum.
Über allen Gipfeln ist Ruh
De Wandrers Nachtlied II (1780). Sobre todos os cumes está a paz: oito versos rabiscados na parede de uma cabana de caça no Kickelhahn perto de Ilmenau.
Yet each man kills the thing he loves
Estrofe-refrão de The Ballad of Reading Gaol (1898), o último poema longo de Wilde, escrito após a saída da prisão.
Life does not cease to be funny when people die any more than it ceases to be serious when people laugh
De The Doctor's Dilemma (1911), Bernard Shaw. Fala registrada em didascália do Ato V.
If a man in the morning hear the right way, he may die in the evening without regret
Analectos 4.8. Quatro caracteres que se tornaram chéngyǔ chinês: 朝聞道夕死可矣. A urgência absoluta do dào como medida da vida.
Zhuangzi questiona a caveira
Zhuangzi cap. 18 (Externo). Encontra uma caveira na estrada, dorme com ela de travesseiro, sonha. A caveira: 'Não trocaria a felicidade de rei pela canseira de homem vivo'.
Drumming on a tub and singing
Zhuangzi cap. 18 (Externo). Hui Shi visita Zhuangzi após a morte da esposa e o encontra cantando e batendo num cocho. Ele explica: morte e vida são fases da mesma transformação.
»Wie ein Hund!« sagte er, es war, als sollte die Scham ihn überleben
Frase final de Der Process (póstumo 1925). 'Como um cão!', disse ele — era como se a vergonha devesse sobreviver-lhe.
It is not death or pain that is to be feared, but the fear of pain or death
Discursos II.1.13. Aplicação direta do princípio cognitivo: o que paralisa não é o evento, mas a antecipação que dele se faz.
Suicide may also be regarded as an experiment — a question which man puts to Nature
De Parerga und Paralipomena II, cap. XIII §160 (1851). O suicídio é experimento que destrói a consciência que faz a pergunta — experimento desajeitado.
Non vivere bonum est, sed bene vivere
Da Epistula 70.4 a Lucílio. Não é viver que é bom, é viver bem — argumento estoico sobre suicídio racional contra prolongamento sem sentido.
Le soleil ni la mort ne se peuvent regarder fixement
Maxime 26. A imagem comparativa que se tornou uma das mais citadas: o olhar humano não sustenta nem a luz extrema nem a finitude.
L'espérance, toute trompeuse qu'elle est, sert au moins à nous mener à la fin de la vie par un chemin agréable
Maxime 168. Concessão rara de La Rochefoucauld: a esperança engana, mas torna o caminho até a morte suportável.
Il y a différence entre souffrir la mort constamment, et la mépriser
Maxime 504. Última máxima do livro. Crítica longa ao desprezo estoico pela morte: suportar firme não é o mesmo que desprezar.
Homo liber de nulla re minus, quam de morte cogitat, et ejus sapientia non mortis, sed vitae meditatio est
Da Ethica IV, prop. LXVII (1677). Inversão direta de Montaigne e da tradição estoica: a sabedoria do homem livre é meditação sobre a vida.
Que philosopher c'est apprendre à mourir
Título do cap. 20 do livro I dos Essais (1580). Formulação que Montaigne herda de Cícero (Tusculanas), que cita Sócrates no Fédon.
Je veux que la mort me trouve plantant mes choux, mais nonchalant d'elle, et encore plus de mon jardin imparfait
Do livro I, cap. 20 dos Essais (1580), Que philosopher c'est apprendre à mourir. Postura cotidiana diante da morte: continuidade prática em vez de meditação solene.
À quelque heure que tu meures, le tout y est
Do livro I, cap. 20 dos Essais (1580), Que philosopher c'est apprendre à mourir. A vida vale pela completude do tempo vivido, não pela duração.
Le dernier acte est sanglant, quelque belle que soit la comédie en tout le reste
Dos Pensées #210 (Brunschvicg). A imagem teatral serve para criticar a felicidade que se constrói ignorando a mortalidade.
Je meurs en adorant Dieu, en aimant mes amis, en ne haïssant pas mes ennemis, et en détestant la superstition
Última declaração de Voltaire, ditada ao secretário Wagnière em 28 fev 1778, três meses antes da morte. Resposta ao clero parisiense, que tentava obter retratação no leito de morte.
Criamos sistemas para negar a morte
Tese central de A Negação da Morte (1973) de Ernest Becker, Pulitzer. Toda civilização é um sistema simbólico de defesa contra o conhecimento da própria mortalidade.
