#Memorias-Postumas-1881
11 notas · última:
Obra de finados
Expressão de Machado no prólogo 'Ao leitor' de Memórias Póstumas, que abre a edição em livro de 1881. Ele caracteriza ali o livro como 'obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne...'
Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas
Capítulo LXVIII de Memórias Póstumas — 'O Vergalho'. Brás Cubas vê Prudêncio, ex-escravo da família e antigo cavalo de seu cavalgar infantil, açoitando outro escravo numa rua e racionaliza a cena.
Há na felicidade presente uma gota da baba de Caim
Capítulo VI de Memórias Póstumas. Brás Cubas avisa que não se confie no instante feliz, contaminado pelo gérmen fratricida — referência a Caim que Machado retoma em outras passagens.
Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria
Frase final de Memórias Póstumas (cap. CLX, 'Das Negativas'). Brás Cubas balanceia a vida e fecha com a única negativa que considera ganho — a interrupção da cadeia humana.
Matamos o tempo; o tempo nos enterra
Aforismo do capítulo CXIX de Memórias Póstumas. Brás Cubas inverte a expressão coloquial 'matar o tempo' (ocupar o ócio) e mostra a assimetria entre verbo metafórico e verbo literal.
Suporta-se com paciência a cólica do próximo
Aforismo do capítulo CXIX de Memórias Póstumas — 'Parêntesis'. Brás Cubas alista máximas que diz ter rejeitado da publicação; este é dos mais corrosivos sobre a empatia.
Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante
Capítulo XXVII de Memórias Póstumas. Brás Cubas corrige Pascal: o homem não é frágil meditativo, é defeito tipográfico que pensa. A imagem desloca o eixo da reflexão sobre o humano.
Pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro
Capítulo II de Memórias Póstumas — 'O Emplasto'. Brás Cubas descreve o nascimento da sua ideia fixa, o emplasto anti-hipocondríaco que pretende dar fama universal e que termina por matá-lo.
Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga
Capítulo VII de Memórias Póstumas — 'O Delírio'. A figura imensa que aparece a Brás Cubas recusa nome unívoco e se declara mãe e inimiga, fórmula que sintetiza a leitura machadiana da existência.
Sou um defunto autor, para quem a campa foi outro berço
Capítulo I de Memórias Póstumas, justificando a inversão do começo. O narrador defende a escolha de abrir pelo fim — o sepulcro como novo nascimento — e prefere a fórmula 'defunto autor' a 'autor defunto'.
Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas
Dedicatória de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). Inverte o destinatário convencional da dedicatória — não a um leitor vivo, mas ao verme que come o cadáver — e anuncia a chave do livro.
