#Ludwig-Wittgenstein
26 notas · última:
Se você quer ir fundo, não precisa ir longe
Cultura e Valor, p. 50e (1946). Anotação que condensa o ethos do trabalho intelectual de Wittgenstein: profundidade não é deslocamento.
O homem tem que despertar para o assombro — e talvez também os povos. A ciência é um meio de adormecê-lo de novo
Cultura e Valor, p. 5e. Wittgenstein opõe assombro a ciência. A explicação científica não responde ao espanto; apaga o que o tornaria possível.
A ambição é a morte do pensamento
Cultura e Valor, p. 77e (1947). Wittgenstein registra uma das suas máximas mais cortantes sobre o trabalho intelectual.
O modo como você usa a palavra Deus mostra não a quem se refere, mas o que quer dizer
Cultura e Valor, p. 50e (1946). O conteúdo religioso se descreve pelo uso da palavra, não por referência a entidade. Aplicação tardia da semântica do uso.
Palavras são atos
Cultura e Valor, p. 50e. Anotação de Wittgenstein anterior a Austin. Palavras não descrevem o mundo de fora — operam dentro dele.
Gênio é talento exercido com coragem
Cultura e Valor, p. 38e. Wittgenstein desfaz a aura mística do gênio. Não é dom raro: é talento que ousa o que outros recuam.
No fim das razões, vem a persuasão
Da Certeza §612. Quando duas imagens de mundo colidem, o argumento atinge seu limite. O que resta é persuasão, não demonstração.
No fundo de toda crença bem fundada está a crença sem fundamento
Da Certeza §253. A justificação termina em proposições que não são, elas mesmas, justificadas. O fundamento é prática, não axioma.
Quem tentasse duvidar de tudo nem chegaria a duvidar de coisa alguma
Da Certeza §115. Resposta a Descartes: a dúvida pressupõe certezas para operar. Sem solo firme, nenhuma dúvida começa.
O corpo humano é a melhor imagem da alma humana
Investigações Filosóficas, Parte II, iv. Tese contra o dualismo: a alma não está escondida por trás do corpo. Ela se mostra nele.
Quando obedeço a uma regra, não escolho. Sigo a regra cegamente
Investigações Filosóficas §219. Seguir regra não é escolher entre interpretações. É reação treinada, não deliberação consciente.
Esgotadas as justificações, cheguei à rocha e minha pá se entorta
Investigações Filosóficas §217. Imagem do limite da justificação: cavar mais é gesto vão. A regra se ensina por treinamento, não por argumento.
Os aspectos das coisas mais importantes para nós ficam ocultos por sua simplicidade e familiaridade
Investigações Filosóficas §129. O que estrutura nossa compreensão fica invisível justamente por ser corriqueiro. Diagnóstico do trabalho filosófico.
Não pense, mas olhe!
Investigações Filosóficas §66. Wittgenstein interrompe a busca por essência conceitual e pede observação dos casos. Método contra a generalização precoce.
Se um leão pudesse falar, não poderíamos compreendê-lo
Investigações Filosóficas, Parte II, xi. A compreensão linguística pressupõe forma de vida partilhada. Sem ela, mesmo a fala traduzível seria opaca.
Não é acordo em opiniões, mas em forma de vida
Investigações Filosóficas §241. O acordo que fundamenta a linguagem não está em juízos compartilhados, mas em uma Lebensform comum prévia.
Nenhum curso de ação pode ser determinado por uma regra
Investigações Filosóficas §201. Paradoxo da regra: qualquer ação pode ser interpretada como conforme à regra. Núcleo do problema do seguir-uma-regra.
A filosofia é uma luta contra o enfeitiçamento da nossa inteligência pela linguagem
Investigações Filosóficas §109. Wittgenstein redefine o trabalho filosófico como terapia contra os enredos que a própria linguagem nos impõe.
Para uma grande classe de casos, o significado de uma palavra é seu uso na língua
Investigações Filosóficas §43. Wittgenstein desloca o significado da referência para o uso. Frase central da virada para a filosofia da linguagem comum.
Não é como o mundo é que é o místico, mas que ele é
Proposição 6.44 do Tractatus. O místico não está no conteúdo do mundo, mas no fato bruto da existência. Wittgenstein nomeia o assombro com o ser.
O que pode ser dito, pode ser dito com clareza
Prefácio do Tractatus. Wittgenstein resume a tese central do livro em uma linha: o que se diz, diz-se claramente; o resto, silêncio.
Quem me entende reconhece minhas proposições como sem sentido
Proposição 6.54 do Tractatus. Imagem da escada que se descarta após subir. Wittgenstein declara as próprias proposições como sem sentido, a serem superadas.
Existe, sim, o inexprimível. Isso se mostra; é o místico
Proposição 6.522 do Tractatus. Wittgenstein abre espaço para o inexprimível pela distinção dizer/mostrar. O místico não é dito, é mostrado.
Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo
Proposição 5.6 do Tractatus. Identifica extensão da linguagem com extensão do mundo cognoscível. Tese citada e descontextualizada com frequência.
O mundo é tudo o que é o caso
Proposição 1 do Tractatus. Abertura do livro define mundo como totalidade de fatos, não de coisas. Decisão ontológica que comanda toda a obra.
Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar
Proposição 7 do Tractatus, única frase de sua seção. Encerra o livro impondo silêncio sobre o que excede os limites da linguagem com sentido.
