#Filosofia
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O paradoxo: definir filosofia no fim da vida
Vários filósofos escrevem 'O que é a filosofia?' no fim da vida — como se tentassem entender o que fizeram durante toda a existência.
Pesquisa Viva: O que faz a filosofia
Pode-se falar de qualquer coisa filosoficamente, mas nem todo modo é filosófico. Investigar o que distingue o modo filosófico de outras formas de tratar uma questão.
Um filósofo pode falar de qualquer coisa, mas não qualquer coisa
Paráfrase do autor sobre a formulação de Lenio Streck na Crítica Hermenêutica do Direito ('não se pode dizer qualquer coisa sobre qualquer coisa').
Pesquisa Viva: Ontologia
Mapear os sentidos do termo 'ontologia' e diferenciar as leituras que circulam sob a mesma palavra.
A vida não examinada não é vivível para o homem
Dita por Sócrates em seu julgamento em 399 a.C., conforme registrado por Platão na Apologia (38a), ao recusar o exílio como pena alternativa à morte.
Ninguém faz o mal voluntariamente
Paradoxo socrático comumente atribuído a Aristóteles por engano. A formulação é de Sócrates, via Platão; Aristóteles na verdade a refuta com o conceito de akrasia.
O capitalismo é uma religião. É provavelmente o primeiro caso de um culto que não expia, mas universaliza a culpa
Walter Benjamin, fragmento 'Kapitalismus als Religion' (1921). O capitalismo como culto permanente que gera culpa em vez de redimi-la — inclusive nos próprios operadores do sistema.
Diante de uma contradição, faça uma distinção
Adágio escolástico sem autor individual; William James popularizou-o em What Pragmatism Means (1907) como método para dissolver disputas.
Philosophers ranked by their punk credentials
Ranking de filósofos por credenciais punk — de Diógenes ('they're not punk, punk is them') a Heidegger ('basically a cop').
A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis
Camus em O Mito de Sísifo (1942), capítulo final. Não há felicidade sem consciência do absurdo, nem absurdo sem alegria de estar vivo.
Sísifo é a síntese da paixão humana pela vida — mais importante até que a moral
Camus em O Mito de Sísifo (1942). Desprezo pelos deuses, ódio à morte, paixão pela vida. Essas três coisas bastam, mesmo sem moral nem esperança.
Toda criação artística é uma sedimentação: o conjunto de gestos que um indivíduo deixa
Baseado em Camus, O Mito de Sísifo (1942), capítulo A Criação Efêmera. A obra de um homem se fortalece nos seus aspectos sucessivos e múltiplos.
Se as leis da natureza não pouparam nem Este, então o planeta inteiro é uma mentira
Kirílov em Os Demônios (1872) de Dostoiévski. Se Cristo morreu e não houve paraíso, tudo que se construiu sobre essa promessa é mentira. O sacrifício perfeito foi em vão.
A obra de arte nasce da recusa da inteligência em racionalizar o concreto. Marca o triunfo do carnal
Camus em O Mito de Sísifo (1942). A arte existe onde a razão se recusa a abstrair. O concreto vence o conceito.
O artista, tanto quanto o pensador, mergulha dentro da própria obra e se transforma dentro dela
Camus em O Mito de Sísifo (1942), capítulo A Criação Absurda. Criar é viver duplamente: o artista refaz sua realidade e se refaz com ela.
A ciência que deveria me ensinar tudo termina em hipótese, a lucidez naufraga em metáfora, a incerteza se resolve em obra de arte
Camus em O Mito de Sísifo (1942). Se estressarmos a ciência até o fim, ela começa a contemplar. O conhecimento racional encontra seu próprio muro.
Entre a história e o eterno, escolho a história porque prefiro as certezas
Camus em O Mito de Sísifo (1942), capítulo A Conquista. O conquistador escolhe a história porque dela ao menos tem certeza — o eterno é promessa, a história é o que esmaga.
O que importa não é a vida eterna, e sim a eterna vivacidade
Nietzsche em Humano, Demasiado Humano (1878). A vida eterna não interessa. O que interessa é a intensidade viva de cada momento — a eterna vivacidade.
A Igreja repudiava no ator a multiplicação herética de almas
Camus em O Mito de Sísifo (1942), capítulo Drama. A Igreja via no ator uma heresia: viver várias almas negava a unicidade da alma que a doutrina exigia.
Vi pessoas agir mal com muita moralidade e constato todos os dias que a honestidade não precisa de regras
Frase de Albert Camus em O Mito de Sísifo (1942), capítulo 'O Homem Absurdo'. A versão popular em português altera o sentido do original.
O ator reina no perecível. De todas as glórias, a dele é a mais efêmera. Mas todas as glórias são efêmeras
Camus em O Mito de Sísifo (1942), capítulo Drama. O ator é o herói absurdo que sabe que sua glória morre com ele. Mas toda glória morre — ele apenas não se engana.
Não existem vários amores. Existem várias relações únicas, e quanto mais se vive, mais ricas
Paráfrase de Camus em O Mito de Sísifo (1942), capítulo Don Juanismo. Don Juan ama cada vez com todo o seu ser. Não há amor total, há repetição intensa.
O homem absurdo vive sua aventura no tempo que lhe cabe. Esse é o seu campo, essa é a sua ação, que ele protege de qualquer juízo que não o seu
Camus em O Mito de Sísifo (1942), capítulo A Liberdade Absurda. O campo do homem absurdo é o tempo, e o único juízo que conta é o próprio.
Para que precisaríamos de Deus? Para o possível, os homens bastam
Lev Shestov, citado por Camus em O Mito de Sísifo. Só recorremos a Deus para obter o impossível. Para o possível, os homens se bastam.
Se a única história significativa do pensamento humano fosse escrita, teria de ser a história dos seus arrependimentos sucessivos e das suas impotências
Camus em O Mito de Sísifo (1942). A história do pensamento humano é a história de quem tentou entender o mundo e falhou, vez após vez.
Criamos sistemas para negar a morte
Tese central de A Negação da Morte (1973) de Ernest Becker, Pulitzer. Toda civilização é um sistema simbólico de defesa contra o conhecimento da própria mortalidade.
Todas as grandes ações e todos os grandes pensamentos têm um início ridículo
Frase de Albert Camus em O Mito de Sísifo (1942). A versão popular com 'coisas' é uma simplificação — o original diz 'ações e pensamentos'.
Vivemos no futuro: 'amanhã', 'mais tarde', 'quando você tiver seu caminho'. Essas irrelevâncias são admiráveis, pois, afinal, trata-se de morrer
Camus em O Mito de Sísifo (1942). O hábito de adiar a vida para o futuro é admirável de tão absurdo, porque no fim trata-se apenas de morrer.
Enquanto a mente se cala, tudo se arranja na unidade da sua nostalgia. Ao primeiro movimento, o mundo racha: fragmentos cintilantes se oferecem ao entendimento
Camus em O Mito de Sísifo (1942). A nostalgia da unidade é o motor do drama humano: queremos que o mundo faça sentido, mas ao primeiro gesto de pensamento ele se estilhaça.
Saber que não há amanhã garantido é o que libera: se nada é prometido, nada é devido
Paráfrase de O Mito de Sísifo (1942). Camus propõe trocar a liberdade a serviço do amanhã por uma liberdade a serviço do hoje, já que a morte é certa.
Camus: a esperança é suicídio filosófico
Em O Mito de Sísifo, Camus chama de suicídio filosófico todo salto de fé que troca o absurdo pela esperança. Esperar é desistir de pensar.
Spinoza: ninguém se mata pela própria natureza — todo suicídio é servidão, não liberdade
Para Spinoza, todo suicídio é capitulação a causas externas. O ato que se apresenta como liberdade suprema é servidão total: o corpo vencido por afetos que já não consegue resistir.
O que se denomina uma razão para viver é ao mesmo tempo uma excelente razão para morrer
Camus em O Mito de Sísifo (1942). As convicções que dão sentido à vida são as mesmas pelas quais se aceita morrer.
Não há senão um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio
Frase de abertura de O Mito de Sísifo (1942). Camus coloca o suicídio como a questão inaugural da filosofia: julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida.
Se eu me matar por projeto, me igualo a Deus
Paráfrase de Kirílov em Os Demônios (1872) de Dostoiévski. O suicídio por decisão filosófica, não por desespero, como prova da liberdade absoluta do homem.
John Stuart Mill
Mill reformou o utilitarismo de Bentham, defendeu a liberdade individual e o voto feminino, e escreveu o manual padrão de economia política do século XIX.
Jeremy Bentham
Bentham fundou o utilitarismo como sistema, propôs o cálculo felicífico e influenciou reformas penais e sociais no século XIX.
Will Durant
Historiador e filósofo americano (1885–1981). Popularizou a filosofia com The Story of Philosophy (1926) e escreveu com Ariel os 11 volumes de The Story of Civilization.
O céu e o inferno são portáteis
Aforismo popular sem autoria verificável. A ideia aparece em Milton (1667), Oscar Wilde (1890) e Neil Gaiman (1990), cada um com formulação própria.
O velho mundo está morrendo, o novo tarda a nascer. Nesse claro-escuro, surgem os monstros
Versão popularizada por Žižek em 2010. O original de Gramsci (Quaderno 3, §34, 1930) fala em 'fenômenos mórbidos', não em 'monstros'.
