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Quando lhe perguntaram qual era a coisa mais bela do mundo, Diógenes respondeu «a liberdade de expressão». As suas palavras e atos manifestam uma obstinação e um protesto contínuo contra a corrupção, o luxo e a hipocrisia. O caminho para a liberdade individual requer honestidade e uma vida de austeridade material absoluta. Diógenes atribuiu ao seu mestre Antístenes o mérito de o ter introduzido a uma vida de pobreza e felicidade e, como ele, aceitou de boa vontade o epíteto «cão». Quando Platão lhe chamou de cão, replicou: «É bem verdade, porque volto uma e outra vez àqueles que me venderam.»
Trecho de Simon Critchley em O Livro dos Filósofos Mortos, edição em português publicada por Edições 70, situando Diógenes no panorama biográfico do livro.
Ficou cego e sofreu de cruéis enfermidades e de uma apatia generalizada. Foi criticado por não ter a coragem de cometer suicídio, embora pareça ter estado próximo. Disse: «A natureza que me gerou irá igualmente destruir-me», e morreu aos oitenta e cinco anos.
Passagem de Simon Critchley em O Livro dos Filósofos Mortos, edição brasileira em português publicada em 2020 pela Edições 70.
Contudo, afirma de imediato que foi dos gregos que a filosofia emergiu e «até o seu nome recusa ser traduzido em língua estrangeira ou bárbara». Portanto, a filosofia fala grego e a sua história tem início na Grécia e, claro, na Europa. Esta é a narrativa típica da história da filosofia que reduz o não-grego, o não-europeu, as fontes «bárbaras» às chamadas «tradições de sabedoria», mas não filosofia propriamente dita.
Passagem de Simon Critchley em O Livro dos Filósofos Mortos, edição em português publicada em 2020 por Edições 70.
Porque a história das mortes dos filósofos é também um conto de bizarrias, loucura, suicídio, assassinato, má sorte, pathos, bathos e algum humor negro. Irão morrer a rir, prometo.
Passagem de Simon Critchley em O Livro dos Filósofos Mortos, edição portuguesa de The Book of Dead Philosophers (2008): a promessa de que se morre a rir e o inventário das mortes dos filósofos.
A filosofia começa assim pelo questionamento das certezas no reino do conhecimento e pelo desenvolvimento de um amor pela sabedoria. A filosofia não é apenas epistémica, mas erótica.
Passagem de Simon Critchley em O Livro dos Filósofos Mortos, edição ibérica de The Book of Dead Philosophers, publicada em 2008 por Taurus Ediciones, S.A.
O futuro do conhecimento e usar os dois pés para andar
No fecho, sobre o quadro de Rafael: Aristóteles aponta para baixo e convida a usar os dois pés para andar — as quatro causas como técnica de integração do conhecimento, não verdade absoluta.
A causa final que só os outros descobrem
A causa final do indivíduo só se revela postumamente, aos que ficam; daí o existencialismo de Sartre e, na espécie, a seleção natural como causa final.
Penso, logo existo: a depressão como perda da causa eficiente
A causa eficiente do comportamento é o próprio agir; numa ponte com o cogito, a depressão é lida como perda da causa eficiente — deixar de agir é deixar de se reconhecer.
O deus platônico de cada área do saber
A fragmentação disciplinar é um retorno a Platão: cada área ganha seu deus absoluto — Weber, Darwin, Newton — sob cujo jugo o entendimento da realidade fica preso a poucas causas.
As quatro causas de Aristóteles, dos textos ao telos
Material, formal, eficiente e final: os quatro modos de Aristóteles responder 'por quê?'. São quatro, não três, embora ele próprio note que as três últimas costumam coincidir. A causa final é o telos, o fim de toda arte.
Por que o Ocidente chamou o combate de 'arte'
No séc. XVI, 'arte' (ou 'ciência') aplicada ao combate queria dizer um corpo de princípios racionais e ensináveis, em contraste com a briga. E era um lance contra a hierarquia clássica, que punha a arte das armas entre as ocupações indignas do corpo.
As Cobras de Veríssimo — duas serpentes filosofando sobre o universo
Tira de quadrinhos publicada por Luis Fernando Veríssimo entre 1975 e 1997 em jornais brasileiros. Duas serpentes sem nome comentam Deus, futebol, política e a insignificância humana.
Never call yourself a philosopher, nor talk a great deal among the unlearned about theorems, but act conformably to them
Enchiridion 46. Filosofia se exibe na conduta, não no discurso. Falar muito de doutrina diante de leigos é sintoma de incompreensão.
Das Leben ist kurz und die Wahrheit wirkt ferne und lebt lange: sagen wir die Wahrheit
Do Prefácio à primeira edição de Die Welt als Wille und Vorstellung (1819). A vida é curta e a verdade age longe e vive longe — digamos a verdade.
Il n'y a qu'un problème philosophique vraiment sérieux: c'est le suicide
Primeira frase de Le Mythe de Sisyphe (1942). Camus reabre a filosofia a partir da pergunta sobre se a vida vale ou não a pena ser vivida.
Vorausgesetzt, dass die Wahrheit ein Weib ist
Abertura do prefácio de Jenseits von Gut und Böse (1886). Suposto que a verdade seja uma mulher — ataque irônico ao dogmatismo filosófico.
Allmählich hat sich mir herausgestellt, was jede grosse Philosophie bisher war: nämlich das Selbstbekenntnis ihres Urhebers
De Jenseits von Gut und Böse §6 (1886). Tese genealógica: toda grande filosofia até hoje foi confissão pessoal do autor, biografia involuntária.
Non praesumo, me optimam invenisse philosophiam, sed veram me intelligere scio
Da carta 76 a Albert Burgh (1675). Spinoza não pretende ter encontrado a melhor filosofia, sabe que entende a verdadeira.
Meum institutum non est verborum significationem sed rerum naturam explicare
Da Ethica III, definição XX (1677). Spinoza distingue seu projeto da semântica escolástica: o objetivo é explicar a natureza das coisas, não o significado das palavras.
Que philosopher c'est apprendre à mourir
Título do cap. 20 do livro I dos Essais (1580). Formulação que Montaigne herda de Cícero (Tusculanas), que cita Sócrates no Fédon.
O que quer que um outro disser bem, é meu
Sêneca, em carta a Lucílio, justifica que toda boa formulação alheia lhe pertence, reconhecendo logo depois que mesmo essa frase já fora dita por Epicuro.
Si Dieu n'existait pas, il faudrait l'inventer
Da Épître à l'Auteur du Livre des Trois Imposteurs (1770). Voltaire reage ao tratado anônimo deísta defendendo uma posição utilitária sobre a existência de Deus.
When people begin to philosophize they seem to think it necessary to make themselves artificially stupid
De Theory of Knowledge (manuscrito de 1913, publicado postumamente em 1984). Crítica ao gesto filosófico de fingir não saber o que se sabe para construir sistemas a partir do zero.
The point of philosophy is to start with something so simple as not to seem worth stating, and to end with something so paradoxical that no one will believe it
De The Philosophy of Logical Atomism (1918), série de palestras dadas em Londres. Russell descreve o método analítico que viria a marcar a filosofia inglesa do século XX.
In science there are many matters about which people are agreed; in philosophy there are none
De Logical Atomism (1924). Russell distingue ciência e filosofia pelo regime de acordo: a primeira avança em consenso, a segunda mantém o desacordo como matéria de trabalho.
Non ridere, non lugere, neque detestari, sed intelligere
Fragmento da abertura do Tratado Político de Spinoza (1677), onde declara o método — não rir, lamentar ou amaldiçoar as ações humanas, mas compreendê-las.
Algocracia e o reencantamento do mundo
Streck inverte Weber: a algocracia produz reencantamento, não desencantamento. O algoritmo opera como atalho para fugir da angústia da modernidade.
Os três modos de interpretação (Eco, Harvard 1992)
Estrutura central da discussão sobre superinterpretação: Eco propõe três modos — texto-coincidente, sem limites, e o intermediário hermenêutico.
Eco contra Eco: fascismo eterno e a Abadia de Melk
Streck e Eco: a crítica de que Eco cai na superinterpretação que combateu, e a viagem biográfica à Abadia de Melk, lugar do narrador de O Nome da Rosa.
Do Homo Sapiens ao Homo Ridiculus
Diagnóstico de Streck: salto antropológico em que as pessoas perderam toda a vergonha. A erosão da vergonha como tema central.
A modernidade nasce com angústia (Kierkegaard)
O brain rot algorítmico é resposta técnica a uma demanda mais funda: a tentativa de desangústia. Cultura algorítmica produz psicotrópicos epistêmicos.
Toda determinação é negação (Hegel, lendo Spinoza)
A fórmula 'toda determinação é negação' é reformulação de Hegel (1816). Spinoza escreveu apenas 'determinatio negatio est' na Carta 50 a Jarig Jelles, sobre figuras geométricas.
Pesquisa Viva: Discursos protrépticos
Por que estudar filosofia no século XXI? Mapear os principais discursos protrépticos da história e o que cada um propunha como razão para a conversão à filosofia.
Clovis de Barros Filho: É preciso ter Brio!
A receita de Clóvis de Barros Filho para estudar: três páginas de Kant, lidas até entender — porque sem brio, nenhuma pedagogia adianta.
O preço político da filosofia: Cato, Cícero, Sêneca
O filósofo desafia convenções e por isso é visto como inimigo do Estado — Cato suicidou-se, Cícero foi decapitado, Sêneca ordenado a se matar por Nero.
Eleuteria, parresia e o coach como distorção
Liberdade interior (eleuteria) e de expressão (parresia) definem o filósofo-médico da alma. O coach moderno é a sua grotesca distorção.
Preparação do corpo e os três vícios capitais
Para os antigos, o corpo do filósofo importava — Epicteto caçoava de magros e pálidos. Os três vícios: filedonia, filargiria, filodoxia.
Discursos protrépticos e a conversão à filosofia
Protréptico é o discurso que convence à prática filosófica como modo de vida. Adotar a filosofia era uma conversão — Agostinho via Cícero.
Nietzsche: o filósofo se identifica à maneira dos antigos
O filósofo se reconhece pelo olhar, postura, roupa e costumes — não pelo falar ou escrever. Por isso era profissão perigosa na Antiguidade.
Nenhuma definição de filosofia pode ser dogmática
Para entender o amor à sabedoria é preciso observar não só as obras mas a vida dos filósofos — e nenhuma definição é definitiva.
