#Fernando-Pessoa
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Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Verso de abertura de 'Língua' (1984) de Caetano Veloso, faixa do álbum *Velô* com participação de Elza Soares e referência à 'pátria' linguística de Bernardo Soares.
Viver é ser outro
Do Livro do Desassossego (Bernardo Soares), fragmento aproximado de 299 no Arquivo Pessoa. Sentir hoje o mesmo que ontem é apenas lembrar, não sentir.
Tudo vale a pena se a alma não é pequena
De Mensagem (1934), Mar Português, segunda estrofe. Único livro de poesia que Pessoa publicou em vida, premiado pelo SPN salazarista.
Tudo quanto penso, tudo quanto sou, é um deserto imenso onde nem eu estou
Poema do ortônimo Pessoa, datado 11 mar 1935 (oito meses antes da morte). Recolhido em Poesias Inéditas (Ática); Arquivo Pessoa 354.
Sentir tudo de todas as maneiras
De Passagem das Horas, Álvaro de Campos (póstumo). Manifesto sensacionista da fase futurista-whitmaniana do heterônimo.
Sê plural como o universo!
Apontamento solto do ortônimo Pessoa, recolhido em Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação (Ática, 1966). NÃO pertence ao Livro do Desassossego.
Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes
Ode de Ricardo Reis, datada 14 fev 1933 (Arquivo Pessoa 503). Estoicismo neoclássico do heterônimo horaciano de Pessoa.
O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem
Frase atribuída em redes sociais a Pessoa, Fernando Sabino e Baudelaire. Autor real: Maria Júlia Paes da Silva, professora de enfermagem da USP, em livro acadêmico.
O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente
Quadra inicial de Autopsicografia, ortônimo Pessoa (1 abr 1931, pub. Presença 1932). Definição programática da heteronímia tratada como teoria poética.
O mito é o nada que é tudo
De Ulisses, primeiro poema de Mensagem (1934). Definição do mito como nada que sustenta tudo, na fundação mítica de Lisboa.
O essencial é saber ver, saber ver sem estar a pensar
Do poema XXIV de O Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro (Athena nº 4, jan 1925). Programa pedagógico do heterônimo: ver é tarefa, separada do pensar.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto
Abertura de Aniversário, Álvaro de Campos (15 out 1929). Face nostálgica de Campos, contraposta à exuberância de Ode Triunfal e Ode Marítima.
Navegar é preciso; viver não é preciso
Pessoa cita explicitamente como frase dos navegadores antigos. A formulação latina (Navigare necesse) é atribuída por Plutarco a Pompeu, séc. I a.C.
Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo
Abertura de Tabacaria, Álvaro de Campos (15 jan 1928, pub. Presença 1933). Sequência da escalada niilista do heterônimo modernista de Pessoa.
Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem achei
Do Cancioneiro (ortônimo Pessoa, 1930). Atenção: circula frequentemente atribuída a Ricardo Reis — o poema-base é do ortônimo, não do heterônimo.
Minha pátria é a língua portuguesa
Do Livro do Desassossego (Bernardo Soares), fragmento 259 (ed. Coelho 1982). Trecho originalmente publicado em vida na revista Descobrimento (1931).
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos
Frase amplamente atribuída a Fernando Pessoa no Brasil — é apócrifa. Autor real: Fernando Teixeira de Andrade, professor brasileiro, em poema O Medo: o Maior Gigante da Alma.
Há metafísica bastante em não pensar em nada
De O Guardador de Rebanhos V, Alberto Caeiro (Athena nº 4, jan 1925). Anti-metafísica do heterônimo bucólico de Pessoa.
Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim
Da carta a Adolfo Casais Monteiro (13 jan 1935). Pessoa narra o nascimento dos heterônimos em êxtase de escrita: trinta poemas a fio, em pé, em êxtase indefinível.
Eu sou do tamanho do que vejo e não, do tamanho da minha altura
Do poema VII de O Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro (Athena nº 4, jan 1925). A medida do sujeito é o que ele percebe.
Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida
Verso de Pedra Filosofal, atribuído por vezes a Pessoa. Autor real: António Gedeão (heterônimo do cientista Rómulo de Carvalho).
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce
Verso de abertura de O Infante, em Mensagem (1934). Tornou-se aforismo nacional em Portugal sobre a relação entre vontade, imaginação e realização.
Come chocolates, pequena! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria
De Tabacaria, Álvaro de Campos (1928). Parêntese da menina dos chocolates — o segundo trecho mais citado do poema, depois do Não sou nada.
Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção
Do Livro do Desassossego (Bernardo Soares), continuação do fragmento Viver é ser outro (Arquivo Pessoa 299). A revirgindade da emoção como ideal.
A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida
Do Livro do Desassossego (Bernardo Soares), fragmento 116 (ed. Coelho 1982). A literatura como evasão estética da realidade.
