Pesquisa Viva: Ontologia
Estado#
- Em foco: leitura 6 (Transcendental / crítica de categorias), Ryle. Quatro notas extraídas; bloco de Ryle fechado.
- Próximo na leitura 6: Kant (Crítica da Razão Pura, tábua das categorias).
- Pendentes na leitura 1 (clássica): ambiguidade filosofia primeira vs. teologia (Met. E 1, 1026a); cunhagem do termo (Goclenius 1613 → Clauberg 1647 → Wolff 1730).
- Pesquisas-irmãs com escopo próprio: Heidegger, Wittgenstein.
Perguntas em aberto#
- Quando “ontológico” é usado como oposto a “epistêmico” (p.ex. Žižek sobre quantum), o que está em jogo é o mesmo “ontológico” de Heidegger?
Leituras a mapear#
Cada uma será exaurida antes de passar à próxima. Fontes verificadas acumulam abaixo da respectiva subseção.
1. Clássica / metafísica#
Aristóteles formula o que hoje chamamos “ontologia”, mas sem usar esse nome. A palavra “ontologia” só aparece no séc. XVII.
✓ Aristóteles, Metafísica Γ (IV), 1, 1003a21-24#
ἔστιν ἐπιστήμη τις ἣ θεωρεῖ τὸ ὂν ᾗ ὂν καὶ τὰ τούτῳ ὑπάρχοντα καθ᾽ αὑτό. “Há uma ciência que estuda o ser enquanto ser e os atributos que lhe pertencem por natureza própria.”
O núcleo técnico é τὸ ὂν ᾗ ὂν (to on hê on). ᾗ (hê) significa “enquanto”, “sob o aspecto de”. A matemática estuda o ser enquanto quantidade. A física estuda o ser enquanto movimento. A filosofia primeira estuda o ser enquanto ser, sem recorte. Seu objeto é o que sobra quando nenhum recorte foi feito.
Aristóteles não chama isso de “ontologia”. Chama de prôtê philosophia, “filosofia primeira”. Em outros livros da Metafísica também aparece theologikê, “teologia”.
Links:
- Perseus (texto grego + tradução Tredennick 1933): http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus:text:1999.01.0051:book=4:section=1003a
- SEP, “Aristotle’s Metaphysics”: https://plato.stanford.edu/entries/aristotle-metaphysics/
✓ Aristóteles, Metafísica Γ (IV), 2, 1003a33–b19 — “o ser diz-se de muitos modos”#
τὸ δὲ ὂν λέγεται μὲν πολλαχῶς, ἀλλὰ πρὸς ἓν καὶ μίαν τινὰ φύσιν καὶ οὐχ ὁμωνύμως. “O ser diz-se de muitos modos, mas com referência a uma coisa única e a uma só natureza, e não por mera homonímia.”
Se “ser” significa coisas diferentes (uma pedra é; a dureza da pedra é; a relação entre duas pedras é), como uma ciência única pode tratar de tudo isso? Aristóteles usa o exemplo de “saudável”. Uma pessoa é saudável. Uma comida é saudável. Uma caminhada é saudável. Cada uma em sentido diferente. A comida é saudável porque preserva a saúde da pessoa; a caminhada, porque a produz. A saúde da pessoa é o referente central, πρὸς ἕν (pros hen), “com referência a um”.
Com o ser funciona igual. Todos os sentidos remetem à substância (οὐσία, ousia). A qualidade existe porque uma substância a tem. A relação existe porque substâncias se relacionam. Sem a substância no centro, os outros sentidos não têm sobre o que predicar.
Links:
- Perseus (mesma seção 1003a): http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus:text:1999.01.0051:book=4:section=1003a
✓ Aristóteles, Categorias 4, 1b25–2a4 — as dez categorias#
O tratado das Categorias (parte do Organon, anterior à Metafísica) enumera dez gêneros supremos do que se pode dizer de algo:
- οὐσία (ousia) — substância
- ποσόν (poson) — quantidade
- ποιόν (poion) — qualidade
- πρός τι (pros ti) — relação
- ποῦ (pou) — lugar / onde
- ποτέ (pote) — tempo / quando
- κεῖσθαι (keisthai) — posição
- ἔχειν (echein) — estado / ter
- ποιεῖν (poiein) — ação
- πάσχειν (paschein) — paixão / ser afetado
As dez são os modos possíveis de predicar algo de um sujeito. E são assimétricas: as nove dependem da primeira. Uma qualidade existe porque está numa substância. Uma relação existe entre substâncias. Sem substâncias, nada.
Aqui Aristóteles se separa de Platão. O ser não é um gênero único do qual tudo participa igualmente. É uma multiplicidade ordenada, com a substância no centro. Kant, muito depois, vai usar “categoria” no sentido próprio dele (condições do entendimento). Ryle vai falar de “erro de categoria” no séc. XX. A palavra persiste, modificada.
Links:
- Wikipedia, “Categories (Aristotle)”: https://en.wikipedia.org/wiki/Categories_(Aristotle)
- SEP, “Aristotle’s Categories”: https://plato.stanford.edu/entries/aristotle-categories/
2. Fenomenológica#
(a iniciar)
3. Pós-estruturalista / lacaniana#
(a iniciar)
4. Computacional / representação do conhecimento#
(a iniciar)
5. Crítica cultural / antropológica#
(a iniciar)
6. Transcendental / crítica de categorias#
Kant, Ryle, filosofia analítica. Autores que recusam a ontologia como sistema metafísico mas refazem a pergunta por outros meios: Kant pela crítica das condições a priori do conhecimento; Ryle pela análise dos erros de categoria.
✓ Gilbert Ryle, “Categories” (Proceedings of the Aristotelian Society 38, 1937–1938, pp. 189–206)#
Ensaio curto onde Ryle introduz o vocabulário do type-trespassing. Tese: uma frase pode estar gramaticalmente perfeita e ainda assim cometer absurdo lógico, porque pelo menos um dos termos não é do tipo certo para se acoplar com os outros. “Type-trespasses” são essas violações de tipo.
Exemplo do tipo de absurdo que Ryle quer detectar (formulação ilustrativa minha, não verificada como citação literal dele): “O número 7 é azul” — sintaticamente bem-formada, mas comete type-trespass porque “azul” se aplica a corpos físicos, não a objetos abstratos como números.
Ryle assume uma posição forte: distinguir entre categorias é a tarefa central da filosofia. “We are in the dark about the nature of philosophical problems and methods if we are in the dark about types and categories.”
Ponto importante para a leitura ontológica: Ryle insiste que “there is (and can be) no finite number of categories or types”. Isto é uma ruptura explícita com Aristóteles. Não há tábua de gêneros supremos. Categorias são formais e abertas, não inventário fixo do real.
Links:
- Ryle, “Categories” (PDF integral): https://sites.ualberta.ca/~francisp/NewPhil448/RyleCategories1938.pdf (cópia em local drive)
- SEP, “Gilbert Ryle”: https://plato.stanford.edu/entries/ryle/
✓ Gilbert Ryle, The Concept of Mind (Hutchinson, London, 1949)#
A tese central: Descartes comete um erro de categoria ao falar de “mente” e “corpo”. Trata os dois como duas substâncias do mesmo gênero, conectadas misteriosamente. Ryle chama essa visão de “Official Doctrine” e cunha a expressão “Ghost in the Machine”, “fantasma na máquina”. A mente seria um fantasminha pilotando o corpo-máquina por dentro.
Para mostrar que isso é um erro categorial, Ryle abre o livro com o exemplo do visitante em Oxford (cap. 1):
Um estrangeiro visita Oxford pela primeira vez. Mostram-lhe os colleges, as bibliotecas, os museus, os laboratórios, os escritórios administrativos. Depois ele pergunta: “Mas onde está a Universidade?”
A pergunta parece razoável mas comete um erro de categoria. O visitante supôs que “Universidade” é um item adicional na lista, uma construção ao lado do Christ Church, da Bodleian, do Ashmolean. Não é. Universidade não é um item da mesma categoria que prédio. Universidade é o modo de organização de tudo o que ele já viu. O visitante está procurando a Universidade no mesmo nível ontológico dos prédios, quando ela está num nível diferente.
Para Ryle, falar da mente como “outra coisa” ao lado do corpo é o mesmo erro. Mente não é uma substância paralela. É o modo de organização das disposições e capacidades comportamentais. Quem age inteligentemente, está sendo inteligente. Não há um “ato mental interno” causando o ato externo. Esta posição ficou conhecida como disposicionalismo ou logical behaviorism (rótulos que Ryle rejeitava parcialmente).
Posição no mapa: Ryle herda o vocabulário de Aristóteles (categorias, tipos lógicos) mas rejeita a forma. Para Aristóteles há dez categorias supremas, finitas, que estruturam o ser. Para Ryle, não há tábua. Há a operação local de detectar confusões. Filosofia vira ferramenta de limpeza conceitual, não sistema metafísico.
Links:
- SEP, “Category Mistakes”: https://plato.stanford.edu/entries/category-mistakes/
- Wikipedia, “Category mistake”: https://en.wikipedia.org/wiki/Category_mistake
Notas do Scholion já relacionadas#
- desumanizacao-ontologizacao-ocidente-e-oriente — ontologização como categorização fixa do outro (Naruhodo #436).
- epistemological-limitation-defines-the-thing — “incompleteness is ontological, not epistemic” (Žižek).
- every-epoch-reinvents-its-shakespeare — “ontological incompleteness”.
- ts-eliot-new-work-rewrites-the-past — retroatividade no nível da ontologia.
Notas extraídas#
- disposicionalismo-ryle — mente como modo de organização (Ryle, The Concept of Mind 1949).
- ryle-categorias — como Ryle define categoria (teste de substituição, infinitude, ausência de tábua). Complementada por
ryle-o-que-e-uma-categoriana questão da definição positiva. - ryle-o-que-e-uma-categoria — por que Ryle recusa definição positiva; categoria como posição lógico-gramatical, não essência. Inclui analogia (minha) com o “lado esquerdo”.
- virada-gramatical-ryle-wittgenstein-austin — a tese “Ryle dissolve ontologia em gramática” como marca da filosofia da linguagem comum (Wittgenstein PI §371-373; Ryle; Austin em Sense and Sensibilia). Inclui apontamento crítico de Quine e Heidegger.
