Pesquisa Viva: Lugares fora do tempo
Estado#
- Em foco: ainda escolhendo direção com o autor.
- Próximo: a confirmar.
- Acumula a literatura que sobrou da nota bordel-heterotopia-foucault.
Motivação#
No podcast Vox É Tudo Culpa da Cultura #02, Michel Alcoforado solta de passagem que o salão do bordel é um lugar fora do tempo — como o shopping, como a igreja. Sem relógio na parede, e quem está dentro deixa de saber o que acontece lá fora. Natânia Lopes amplia: a sequência vestiário–salão–quarto, com luzes radicalmente diferentes, produz o que ela chama de elipse no tempo.
O comentário cruza com terreno antigo. Cassino, shopping, parque temático, igreja, museu. Tudo isso já foi estudado como espaço que opera por suspensão temporal. A pesquisa mapeia o que está em cada linhagem.
Perguntas em aberto#
(Só o autor adiciona perguntas.)
Direções a mapear#
A confirmar antes de aprofundar. Cada direção é exaurida antes de passar à próxima.
1. Cassino — Schüll#
- Natasha Dow Schüll, Addiction by Design: Machine Gambling in Las Vegas (Princeton UP, 2012). Etnografia em Las Vegas com designers de cassino, jogadores compulsivos e operadores. Conceitua “the zone”: estado em que o jogador perde tempo, dinheiro, lugar e corpo na máquina. Documenta o método — nada de relógios, nada de janelas, padrões de carpete que mantêm o olhar baixo, recompensa contínua das máquinas.
- Bill Friedman, Designing Casinos to Dominate the Competition (Reno, 2000). Manual da indústria. Codifica a fórmula “low ceilings, no straight aisles, gambling visible from everywhere”.
- David G. Schwartz, Roll the Bones: The History of Gambling (Gotham, 2006). Ângulo histórico.
- {{verificar: tradução brasileira de Schüll?}}
2. Shopping center#
- George Ritzer, Enchanting a Disenchanted World: Continuity and Change in the Cathedrals of Consumption (Sage, 1999; ed. expandida 2010). Trata shopping, cassino, parque e cruzeiro como “catedrais do consumo”.
- Jon Goss, “The ‘Magic of the Mall’” (Annals of the Association of American Geographers, 83(1), 1993). Paper sobre o aparato retórico-arquitetônico do shopping. Tática de associações contraditórias: privado-público, urbano-rural, dentro-fora.
- Margaret Crawford, “The World in a Shopping Mall”, em Sorkin (org.), Variations on a Theme Park (Hill & Wang, 1992).
- Sharon Zukin, Point of Purchase (Routledge, 2004). Antropologia do shopping americano.
- {{verificar: literatura brasileira sobre shopping nos anos 1990–2010?}}
3. Galerias parisienses — Benjamin#
- Walter Benjamin, Das Passagen-Werk (póstumo, ed. Tiedemann, Suhrkamp, 1982; The Arcades Project, Harvard UP, 1999; Passagens, UFMG). Fragmentos sobre as galerias comerciais cobertas de Paris no XIX. Trata-as como “casa-de-sonhos do coletivo”. O termo fantasmagoria descreve a aparência onírica das mercadorias.
- Susan Buck-Morss, The Dialectics of Seeing (MIT Press, 1989). Comentário do projeto inacabado.
- {{verificar: edição brasileira completa do Passagens (UFMG) — quantos volumes saíram?}}
4. Tempo sagrado — Eliade, Turner#
- Mircea Eliade, Le Sacré et le profane (Gallimard, 1957). Distingue tempo sagrado (cíclico, mítico, reversível) de tempo profano (linear, histórico, irreversível). O espaço sagrado abre janela para o tempo originário.
- Victor Turner, The Ritual Process (Aldine, 1969). Liminalidade, communitas. No rito de passagem, o tempo se suspende numa fase liminar. From Ritual to Theatre (1982) estende a categoria para o lazer e o consumo modernos como liminóides.
- Émile Durkheim, Les Formes élémentaires de la vie religieuse (1912). Base anterior — efervescência coletiva no ritual suspende a vida cotidiana.
- {{verificar: alguém já cruzou Eliade-Turner-Foucault sobre suspensão temporal?}}
5. Heterotopia — Foucault e descendência#
- Michel Foucault, “Des espaces autres. Hétérotopies” (conferência 1967, publicada em Architecture, Mouvement, Continuité n. 5, 1984). Define heterotopia como contra-sítio que representa, contesta e inverte os outros lugares da cultura. Lista: cemitério, jardim, museu, biblioteca, feira, hotel, bordel, navio, hospital psiquiátrico, prisão, colônia. Traços formais: regras de entrada/saída, tempo próprio, sistema de aberturas e fechamentos.
- Edward Soja, Thirdspace (Blackwell, 1996). Estende a heterotopia para geografia crítica pós-moderna.
- Henri Lefebvre, La production de l’espace (Anthropos, 1974). Não usa o termo. Oferece o pano de fundo: tríade espaço percebido / concebido / vivido.
- Peter Johnson, “Unravelling Foucault’s ‘different spaces’” (History of the Human Sciences, 19(4), 2006). Crítica aos limites do conceito.
6. Não-lugares — Augé#
- Marc Augé, Non-Lieux. Introduction à une anthropologie de la surmodernité (Seuil, 1992; Não-Lugares, Papirus, 1994). Distingue lugar antropológico (identidade, relação, história) de não-lugar (anonimato, contrato breve com o ambiente).
- {{verificar: como heterotopia e não-lugar se sobrepõem e divergem operacionalmente?}}
7. Parque temático#
A confirmar se entra no escopo.
- Louis Marin, Utopiques: jeux d’espaces (Minuit, 1973). Primeiro a analisar Disneylândia como utopia degenerada. Foucault leu Marin.
- Jean Baudrillard, Simulacres et simulation (Galilée, 1981).
- Michael Sorkin (org.), Variations on a Theme Park (Hill & Wang, 1992).
8. Tempo cobrado na intimidade comercial#
Cruzamento com a nota amor-como-risco-cliente-fixo. O tempo do bordel é tempo vendido em fatias de quarenta minutos.
- Arlie Hochschild, The Managed Heart (University of California Press, 1983). Trabalho emocional como mercadoria.
- Viviana Zelizer, The Purchase of Intimacy (Princeton UP, 2005).
- {{verificar: alguém escreveu especificamente sobre o controle do tempo do programa como técnica de trabalho da puta?}}
Notas do Scholion já relacionadas#
- bordel-heterotopia-foucault — bordel como heterotopia, com paralelo shopping/igreja.
- amor-como-risco-cliente-fixo — fronteira entre comercial e pessoal; toca o tempo.
- puta-como-outra-alteridade-dos-afetos — alteridade da puta; chip do mal e separação de identidade.
Notas extraídas#
(Vazio. Quando uma direção amadurecer, extrair via /add-scholion-note.)
