Pesquisa Viva: Ileísmo
Estado#
- Em foco: as três direções da pergunta inicial estão cobertas (utilidade, embasamento científico e limites, ileísmos famosos verificados por categoria). As pendências de verificação abertas na rodada anterior (Plutarco sobre Xenofonte, comentário acadêmico sobre César, fonte para o traço infantil no caso do Elmo) foram resolvidas: as duas primeiras com fonte primária/acadêmica encontrada, a terceira com reconhecimento explícito de que não há fonte acadêmica sólida para a afirmação popular, só para o fenômeno vizinho do “pronoun reversal”.
- Próximo: a definir com o autor. Única pendência restante: mecanismo neural do autodistanciamento linguístico (Direção 2), ainda não pesquisado.
Motivação#
Pesquisa aberta pelo autor a partir da pergunta central: em que o ileísmo é útil, que embasamento científico tem, e quais são ileísmos famosos. O termo do autor corresponde ao inglês illeism, isto é, falar de si na terceira pessoa em vez da primeira, e não a uma ideia de isolamento insular. O autor indicou a página da Wikipédia sobre Illeism como ponto de partida. A grafia correta em português é “ileísmo” (com um só “l”), conforme a Wikipédia em português, que também dá a etimologia: do latim ille (“ele, aquele”) mais o sufixo -ismo.
Origem do termo: o verbete “illeism” do Oxford English Dictionary registra o primeiro uso conhecido da palavra em torno de 1809–1810, em Samuel Taylor Coleridge, no periódico The Friend (publicado em 28 partes entre junho de 1809 e março de 1810). {{verificar: trecho de The Friend em que Coleridge comenta a terceira pessoa, para confirmar se ele a via como recurso que encobre egotismo}}
Perguntas em aberto#
(Só o autor adiciona perguntas.)
Direções a mapear#
Cada direção é exaurida antes de passar à próxima.
1. Utilidade do ileísmo#
Duas linhas de pesquisa revisadas por pares, ambas com Ethan Kross (University of Michigan) e Igor Grossmann (University of Waterloo):
Autorregulação sob estresse social. Kross, E., Bruehlman-Senecal, E., Park, J., Burson, A., Dougherty, A., Shablack, H. et al. (2014). “Self-Talk as a Regulatory Mechanism: How You Do It Matters.” Journal of Personality and Social Psychology, 106(2), 304–324. DOI: 10.1037/a0035173. Sete estudos, 585 participantes. Falar de si mesmo usando o próprio nome ou a terceira pessoa (em vez de “eu”) aumenta o distanciamento psicológico e leva a pessoa a avaliar estressores futuros como menos ameaçadores. Em tarefas de primeira impressão e de fala em público, quem usava linguagem não-primeira-pessoa teve desempenho melhor segundo avaliadores externos, inclusive entre participantes com ansiedade social.
Raciocínio sábio sobre problemas próprios. Grossmann, I., & Kross, E. (2014). “Exploring Solomon’s Paradox: Self-Distancing Eliminates the Self-Other Asymmetry in Wise Reasoning About Close Relationships in Younger and Older Adults.” Psychological Science, 25(8), 1571–1580. Três estudos mostram que as pessoas raciocinam de forma mensuravelmente mais sábia sobre o problema de outra pessoa do que sobre um problema equivalente próprio, o “paradoxo de Salomão”: sábio para aconselhar os outros e cego para o próprio caso. Quando induzidas a narrar a própria situação em terceira pessoa, a assimetria desaparece: a pessoa passa a raciocinar sobre a própria vida com a mesma qualidade com que raciocina sobre a vida alheia. O efeito foi equivalente entre adultos de 20–40 e de 60–80 anos.
Intervenção de mais longo prazo (⚠ preprint, ainda sem revisão por pares). Grossmann & Kross, “Training for Wisdom: The Illeist Diary Method” (PsyArXiv). Cerca de 300 participantes mantiveram um diário por quatro semanas, metade escrevendo em primeira pessoa, metade em terceira. O grupo em terceira pessoa melhorou em humildade intelectual, capacidade de considerar outras perspectivas e busca de compromisso; o grupo controle não mudou. Houve também regulação emocional mais estável e previsões mais precisas sobre o próprio estado emocional futuro.
O mecanismo comum às três linhas: a terceira pessoa cria distância psicológica do eu sem exigir que a pessoa saia fisicamente da situação. É a mesma distância que ela já usa, automaticamente, para julgar o problema alheio.
2. Embasamento científico#
Os dois estudos revisados por pares da Direção 1 (Kross et al. 2014; Grossmann & Kross 2014) já são o núcleo do embasamento. Complemento sobre limites do fenômeno:
- Pronome não é o mesmo que narcisismo. Raskin, R., & Shaw, R. (1988). “Narcissism and the Use of Personal Pronouns.” Journal of Personality, 56(2), 393–404. 48 participantes falaram cerca de 5 minutos sobre um tema livre; as falas foram transcritas e analisadas quanto ao uso de pronomes pessoais, e os participantes responderam ao Narcissistic Personality Inventory, ao Eysenck Personality Questionnaire e à escala de locus de controle de Rotter. Achado: quem pontua mais alto em narcisismo usa mais “eu” (primeira pessoa singular) e menos “nós” (primeira pessoa plural). O estudo não encontrou relação entre narcisismo e uso de pronomes de segunda ou terceira pessoa. Isto restringe uma afirmação comum na cobertura popular do tema (inclusive na Wikipédia): o excesso de “eu” tem, sim, lastro empírico como sinal de narcisismo. A ideia contrária, de que a terceira pessoa seja sinal de humildade ou o oposto disso, não tem sustentação direta neste estudo, porque não houve correlação medida em nenhum dos dois sentidos.
Ainda em aberto: mecanismo cognitivo ou neural específico do autodistanciamento linguístico. {{verificar: há literatura de Kross sobre correlatos neurais do self-talk em terceira pessoa?}} A confirmar com o autor se busco essa literatura ou se a direção se dá por encerrada aqui.
3. Ileísmos famosos#
Filtrados e verificados caso a caso a partir da lista bruta da Wikipédia. Descartados por falta de fonte primária forte ou por serem apenas rótulos de crítica política genérica: Charles de Gaulle, Richard Nixon, Donald Trump, Narendra Modi, Cristiano Ronaldo, Zlatan Ibrahimović, Pelé, Buda, Swami Ramdas, Dobby, Hercule Poirot.
Historiografia antiga
- Júlio César, Commentarii de Bello Gallico (c. 58–49 a.C.): narra as próprias campanhas militares inteiramente em terceira pessoa, “César fez” em vez de “eu fiz”. Duas leituras acadêmicas convivem, e não uma só. A mais corrente trata a terceira pessoa como efeito retórico do gênero commentarius, que dá ao relato ar de objetividade e atenua o fato de que o general narrador é também o protagonista. É a leitura de Andrew M. Riggsby, Caesar in Gaul and Rome: War in Words (Austin: University of Texas Press, 2006), e de Christina S. Kraus, “Bellum Gallicum”, capítulo em M. Griffin (org.), A Companion to Julius Caesar (Blackwell, 2009), p. 159–174. Ruth Breindel, em “What’s with Caesar and the Third Person in the Gallic Wars?” (New England Classical Journal, 48.2, 2021, p. 1–11, DOI: 10.52284/NECJ.48.2.article.breindel), propõe uma explicação concorrente: os escribas de César, ao tomar ditado, teriam naturalmente escrito na terceira pessoa por não serem eles os autores das ações narradas, um uso já presente em autores gregos. Nessa leitura, o estilo tantas vezes lido como cálculo retórico de César seria, em parte, mérito dos escribas que redigiram o texto sob sua supervisão.
- Xenofonte, Anábase (início do séc. IV a.C.): narra a própria participação na retirada dos Dez Mil também em terceira pessoa. Plutarco, em “Sobre a fama dos atenienses” (De gloria Atheniensium, na coletânea Moralia, seção 1), escreve que Xenofonte “tornou-se sua própria história” ao registrar os próprios feitos como general e atribuir a autoria do relato a um certo Temistógenes de Siracusa, “com o propósito de ganhar mais credibilidade para sua narrativa ao referir-se a si mesmo na terceira pessoa, favorecendo assim outro com a glória da autoria” (tradução livre; trecho localizado via edição Loeb/Penelope da Universidade de Chicago). É um ileísmo redobrado. Ele fala de si como se outro autor falasse de outra pessoa.
Política
- Bob Dole, senador americano e candidato presidencial republicano: ficou conhecido pelo hábito de falar de si na terceira pessoa. O post do linguista Mark Liberman no Language Log documenta o traço, a paródia recorrente de Norm Macdonald no Saturday Night Live durante a campanha de 1996, a aparição de Dole em esquete do programa depois de perder a eleição, e nota que numa contagem de um discurso da época ele já usava “eu” 59 vezes contra uma única ocorrência de “Bob Dole”, sinal de que o tique era mais fama do que prática corrente.
Esporte
- LeBron James, no anúncio televisivo The Decision (ESPN, 8 de julho de 2010), ao explicar a saída do Cleveland Cavaliers: “I wanted to do what was best for LeBron James and what LeBron James was going to do to make him happy.” Segundo reportagem da The Ringer sobre o episódio, essa fala em terceira pessoa foi um dos pontos mais lembrados do anúncio e um dos motivos pelos quais o público reagiu ao momento como autopromoção deslocada.
- Rickey Henderson, ex-jogador de beisebol: ficou conhecido por narrar a própria vida quase sempre em terceira pessoa. O perfil da Wikipédia sobre Henderson e a matéria da Bleacher Report, “Oh, that Rickey!”, registram o traço como parte consolidada de sua imagem pública. ⚠ Já as frases específicas atribuídas a ele, como “Rickey wants to play baseball”, vêm sobretudo de compilações de fãs, como a do Fan Hospitality, sem verificação individual em gravação ou entrevista primária caso a caso.
Ficção
- Gollum/Sméagol, criado por J.R.R. Tolkien em O Hobbit (1937) e O Senhor dos Anéis (1954–1955): fala de si mesmo em terceira pessoa ao longo das próprias falas nos dois livros, como em “Gollum wants it” (“Gollum quer”). A fonte é o texto primário: o traço aparece diretamente no diálogo do personagem, não em comentário de terceiros sobre ele.
- Elmo, personagem de Vila Sésamo/Sesame Street: fala de si na terceira pessoa em suas falas no programa, traço citado como exemplo pelo artigo da Wikipédia sobre illeism. ⚠ Não encontrei declaração de roteirista confirmando que a escolha foi deliberada; é uma leitura repetida por fontes secundárias, não uma citação de quem escreveu o personagem. Sites de divulgação sobre desenvolvimento infantil (⚠ nenhum citado academicamente, incluindo a própria Wikipédia sobre illeism) associam essa escolha a crianças pequenas que se autorreferem pelo próprio nome antes de dominar o pronome “eu”. Fui buscar essa afirmação em literatura acadêmica e não encontrei um estudo que a sustente exatamente nesses termos. O fenômeno vizinho mais bem documentado é a instabilidade dos pronomes pessoais em crianças pequenas, incluindo trocas entre “eu” e “você” (“pronoun reversal”), descrita por Clark (1978), Charney (1980) e Oshima-Takane (1992). Não é a mesma afirmação, e não a estou usando para sustentar o caso do Elmo, só para registrar o que existe de sólido na vizinhança do tema.
Notas do Scholion já relacionadas#
Nenhuma encontrada. Duas notas de Drummond sobre solidão (afirmação de amizade como isolamento; gosto de pensar sozinho) foram localizadas na busca inicial e descartadas pelo autor por serem tangenciais ao tema: tratam de isolamento social, não de fala em terceira pessoa.
Notas extraídas#
Nenhuma ainda.
