Citações
Frases atribuídas, com pesquisa de autoria e contexto.
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Hemos de buscar um terceiro tigre
Conclusão de El otro tigre (El Hacedor, 1960). O tigre nomeado deixa de ser o tigre de carne, e o poema persegue um animal sempre adiante da palavra.
Olhar o rio feito de tempo e água
Verso de abertura de Arte poética (El Hacedor, 1960). Borges converte a metáfora heraclitiana em programa estético em quatro estrofes.
Compreendeu que ele também era uma aparência, que outro estava a sonhá-lo
Linha final de Las ruinas circulares (1940). O mago que sonhou um homem descobre que ele próprio é sonho de outro.
Não sei qual dos dois escreve esta página
Frase final de Borges y yo (1957, recolhida em El Hacedor 1960). O texto curto separa a pessoa privada do escritor público e termina sem decidir entre os dois.
Devo à conjunção de um espelho e de uma enciclopédia a descoberta de Uqbar
Frase de abertura de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius (1940). Toda a fábula epistemológica do conto está cifrada nesses dois objetos.
Um dos pontos do espaço que contêm todos os pontos
Definição do Aleph no conto homônimo (1945). Borges constrói um objeto que viola a topologia ordinária e descreve a vertigem de vê-lo.
A fama é uma forma — talvez a pior — de incompreensão
Aforismo enxertado em Pierre Menard (1939). Borges o atribui ao próprio Menard ao discutir como o Quixote sobreviveu à popularidade.
Não queria compor outro Quixote — o que é fácil — mas o Quixote
Frase central de Pierre Menard, autor do Quixote (1939). Menard quer reescrever palavra por palavra o livro de Cervantes, e Borges desdobra o problema da identidade textual.
Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair
Frase do conto Funes el memorioso (1942). O narrador resume o que Funes não consegue fazer: a memória total impede o pensamento, que exige perda.
Os espelhos e a cópula são abomináveis
Frase atribuída a um heresiarca de Uqbar em Tlön, Uqbar, Orbis Tertius (1940). Borges a coloca na boca de Bioy Casares como citação enciclopédica.
O universo (que outros chamam a Biblioteca)
Frase inicial de La biblioteca de Babel (1941). Borges define o universo como uma biblioteca infinita de galerias hexagonais, anos antes da topologia se popularizar.
Sempre imaginei o paraíso como uma espécie de biblioteca
Verso de abertura do Poema de los dones (1960). Borges escreve no momento em que assume a Biblioteca Nacional argentina ao perder a vista, e a ironia organiza o poema.
Se você quer ir fundo, não precisa ir longe
Cultura e Valor, p. 50e (1946). Anotação que condensa o ethos do trabalho intelectual de Wittgenstein: profundidade não é deslocamento.
O homem tem que despertar para o assombro — e talvez também os povos. A ciência é um meio de adormecê-lo de novo
Cultura e Valor, p. 5e. Wittgenstein opõe assombro a ciência. A explicação científica não responde ao espanto; apaga o que o tornaria possível.
A ambição é a morte do pensamento
Cultura e Valor, p. 77e (1947). Wittgenstein registra uma das suas máximas mais cortantes sobre o trabalho intelectual.
O modo como você usa a palavra Deus mostra não a quem se refere, mas o que quer dizer
Cultura e Valor, p. 50e (1946). O conteúdo religioso se descreve pelo uso da palavra, não por referência a entidade. Aplicação tardia da semântica do uso.
Palavras são atos
Cultura e Valor, p. 50e. Anotação de Wittgenstein anterior a Austin. Palavras não descrevem o mundo de fora — operam dentro dele.
Gênio é talento exercido com coragem
Cultura e Valor, p. 38e. Wittgenstein desfaz a aura mística do gênio. Não é dom raro: é talento que ousa o que outros recuam.
No fim das razões, vem a persuasão
Da Certeza §612. Quando duas imagens de mundo colidem, o argumento atinge seu limite. O que resta é persuasão, não demonstração.
No fundo de toda crença bem fundada está a crença sem fundamento
Da Certeza §253. A justificação termina em proposições que não são, elas mesmas, justificadas. O fundamento é prática, não axioma.
Quem tentasse duvidar de tudo nem chegaria a duvidar de coisa alguma
Da Certeza §115. Resposta a Descartes: a dúvida pressupõe certezas para operar. Sem solo firme, nenhuma dúvida começa.
O corpo humano é a melhor imagem da alma humana
Investigações Filosóficas, Parte II, iv. Tese contra o dualismo: a alma não está escondida por trás do corpo. Ela se mostra nele.
Quando obedeço a uma regra, não escolho. Sigo a regra cegamente
Investigações Filosóficas §219. Seguir regra não é escolher entre interpretações. É reação treinada, não deliberação consciente.
Esgotadas as justificações, cheguei à rocha e minha pá se entorta
Investigações Filosóficas §217. Imagem do limite da justificação: cavar mais é gesto vão. A regra se ensina por treinamento, não por argumento.
Os aspectos das coisas mais importantes para nós ficam ocultos por sua simplicidade e familiaridade
Investigações Filosóficas §129. O que estrutura nossa compreensão fica invisível justamente por ser corriqueiro. Diagnóstico do trabalho filosófico.
Não pense, mas olhe!
Investigações Filosóficas §66. Wittgenstein interrompe a busca por essência conceitual e pede observação dos casos. Método contra a generalização precoce.
Se um leão pudesse falar, não poderíamos compreendê-lo
Investigações Filosóficas, Parte II, xi. A compreensão linguística pressupõe forma de vida partilhada. Sem ela, mesmo a fala traduzível seria opaca.
Não é acordo em opiniões, mas em forma de vida
Investigações Filosóficas §241. O acordo que fundamenta a linguagem não está em juízos compartilhados, mas em uma Lebensform comum prévia.
Nenhum curso de ação pode ser determinado por uma regra
Investigações Filosóficas §201. Paradoxo da regra: qualquer ação pode ser interpretada como conforme à regra. Núcleo do problema do seguir-uma-regra.
A filosofia é uma luta contra o enfeitiçamento da nossa inteligência pela linguagem
Investigações Filosóficas §109. Wittgenstein redefine o trabalho filosófico como terapia contra os enredos que a própria linguagem nos impõe.
Para uma grande classe de casos, o significado de uma palavra é seu uso na língua
Investigações Filosóficas §43. Wittgenstein desloca o significado da referência para o uso. Frase central da virada para a filosofia da linguagem comum.
Não é como o mundo é que é o místico, mas que ele é
Proposição 6.44 do Tractatus. O místico não está no conteúdo do mundo, mas no fato bruto da existência. Wittgenstein nomeia o assombro com o ser.
O que pode ser dito, pode ser dito com clareza
Prefácio do Tractatus. Wittgenstein resume a tese central do livro em uma linha: o que se diz, diz-se claramente; o resto, silêncio.
Quem me entende reconhece minhas proposições como sem sentido
Proposição 6.54 do Tractatus. Imagem da escada que se descarta após subir. Wittgenstein declara as próprias proposições como sem sentido, a serem superadas.
Existe, sim, o inexprimível. Isso se mostra; é o místico
Proposição 6.522 do Tractatus. Wittgenstein abre espaço para o inexprimível pela distinção dizer/mostrar. O místico não é dito, é mostrado.
Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo
Proposição 5.6 do Tractatus. Identifica extensão da linguagem com extensão do mundo cognoscível. Tese citada e descontextualizada com frequência.
O mundo é tudo o que é o caso
Proposição 1 do Tractatus. Abertura do livro define mundo como totalidade de fatos, não de coisas. Decisão ontológica que comanda toda a obra.
Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar
Proposição 7 do Tractatus, única frase de sua seção. Encerra o livro impondo silêncio sobre o que excede os limites da linguagem com sentido.
Existir é a tarefa mais cara que existe
Frase atribuída a Cioran em compilações em português, sem fonte primária verificável. Paráfrase plausível, não citação.
Não há nada como o desespero para nos tornar livres
Frase circula amplamente em redes sociais como Cioran, sem fonte primária identificável em sua obra. Provável paráfrase de leitor.
