Citações
Frases atribuídas, com pesquisa de autoria e contexto.
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Olhos de cigana oblíqua e dissimulada
Capítulo XXV de Dom Casmurro. José Dias descreve assim os olhos de Capitu, num passeio público. A frase carrega o juízo social do agregado e ressoa pelo livro inteiro como sentença.
Olha as estrelas. Enquanto elas brilharem haverá esperança na vida
Frase de 'Olhai os Lírios do Campo' (1938) atribuída a Olívia. Articula esperança a um horizonte cósmico que excede a biografia do sujeito.
Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar
Verso de Drummond registrado em 'Nova Reunião' (1985), volume 2, página 537. A formulação trabalha a singularidade como impossibilidade de equivalência.
Se eu pudesse viver novamente minha vida — não é de Borges
O poema Instantes ('Si pudiera vivir nuevamente mi vida') circula no Brasil atribuído a Borges desde os anos 1990. O autor original é Don Herold, em texto de 1953. Maria Kodama declarou apócrifo.
Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente
Definição de felicidade que aparece em 'Olhai os Lírios do Campo' (1938). Não é estado afetivo, é certeza moral sobre o uso do tempo de vida.
Estou preparando uma canção / em que minha mãe se reconheça
Versos iniciais de 'Canção Amiga', poema de 'Novos Poemas' (1948). Endereço explícito a quem o sujeito quer alcançar com a poesia.
A vida é uma ópera
Capítulo IX de Dom Casmurro. Marcolini, velho tenor italiano, expõe a Bentinho a teoria da vida-ópera: Deus é o poeta do libreto, Satanás é o maestro da partitura, a Terra é teatro de execução.
Pensar, analisar, inventar não são atos anômalos: são a respiração normal da inteligência
Frase de Pierre Menard (1939) inserida no comentário do narrador sobre o trabalho de Menard. Define cognição como função, não exceção.
Eu nunca vi o mar
Verso de abertura de 'Lagoa', poema de 'Alguma Poesia' (1930). Confissão da ignorância geográfica do menino interiorano como ponto de partida da imaginação.
Dom Casmurro
Capítulo I de Dom Casmurro explica a origem do apelido — vingança de um poeta que tomou cochilo do narrador como ofensa. Machado avisa, na primeira página, que o título do livro nasce de mal-entendido.
Humanitas é o princípio
Quincas Borba apresenta o Humanitismo como sistema 'destinado a destruir todos os outros sistemas'. Humanitas é descrita como substância única, universal, eterna, indivisível — princípio que Machado parodia.
Esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu rosto
Epílogo de El Hacedor (1960). Borges fecha o livro com a imagem do homem que mapeia o mundo e descobre desenhar a si mesmo.
Amar o perdido / deixa confundido / este coração
Versos iniciais de 'Memória', poema de 'Claro Enigma' (1951). Formulação cifrada da relação entre afeto e ausência, na fase metafísica de Drummond.
Uma flor nasceu na rua!
Verso central de 'A Flor e a Náusea', poema de 'A Rosa do Povo' (1945). A flor que rompe o asfalto como imagem-síntese da resistência possível em tempo de catástrofe.
Nossa mente é porosa para o esquecimento
Última observação do narrador em El Aleph (1945). Depois de ver o infinito, o que se perde é o rosto de uma pessoa específica.
Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas
Capítulo VI de Quincas Borba (1891). Resumo do Humanitismo, doutrina parodiada por Machado: parábola das duas tribos famélicas em torno de um campo de batatas explica por que a guerra é 'conservação' e a paz, 'destruição'.
Penetra surdamente no reino das palavras
Verso central de 'Procura da Poesia', poema de 'A Rosa do Povo' (1945). Programa metalinguístico que recusa a poesia como auto-expressão.
Os metafísicos de Tlön não buscam a verdade nem a verossimilhança: buscam o assombro
Caracterização do pensamento de Tlön no conto homônimo (1940). A frase é proposta para a metafísica como gênero literário.
Há na felicidade presente uma gota da baba de Caim
Capítulo VI de Memórias Póstumas. Brás Cubas avisa que não se confie no instante feliz, contaminado pelo gérmen fratricida — referência a Caim que Machado retoma em outras passagens.
Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria
Frase final de Memórias Póstumas (cap. CLX, 'Das Negativas'). Brás Cubas balanceia a vida e fecha com a única negativa que considera ganho — a interrupção da cadeia humana.
E agora, José?
Refrão de 'José', poema-título do livro homônimo (1942). Pergunta sem resposta dirigida ao sujeito comum diante do colapso de todos os apoios.
Cometi o pior dos pecados que um homem pode cometer. Não fui feliz
Verso de abertura do soneto El remordimiento (La moneda de hierro, 1976). Aos 76 anos, Borges identifica como pecado o que a tradição cristã não classifica como tal.
Tenho apenas duas mãos / e o sentimento do mundo
Versos do poema-título 'Sentimento do Mundo' (1940). Drummond formula a desproporção entre o que o sujeito pode carregar e o que ele sente.
Minha memória, senhor, é como depósito de lixo
Funes descreve a própria memória ao narrador em Funes el memorioso (1942). A imagem é negativa, não celebratória.
Matamos o tempo; o tempo nos enterra
Aforismo do capítulo CXIX de Memórias Póstumas. Brás Cubas inverte a expressão coloquial 'matar o tempo' (ocupar o ócio) e mostra a assimetria entre verbo metafórico e verbo literal.
Suporta-se com paciência a cólica do próximo
Aforismo do capítulo CXIX de Memórias Póstumas — 'Parêntesis'. Brás Cubas alista máximas que diz ter rejeitado da publicação; este é dos mais corrosivos sobre a empatia.
O original é infiel à tradução
Aforismo borgeano sobre a tradução de Vathek de Beckford (1943), em Otras inquisiciones. Inverte a polaridade tradicional entre original e cópia.
Não serei o poeta de um mundo caduco
Verso de abertura de 'Mãos Dadas', do livro 'Sentimento do Mundo' (1940). Recusa programática da poesia evasiva diante do tempo presente.
Escrever não é mais que um sonho dirigido
Frase do prólogo de El informe de Brodie (1970). Borges define a escrita por contraste com o sonho involuntário que a antecede.
Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante
Capítulo XXVII de Memórias Póstumas. Brás Cubas corrige Pascal: o homem não é frágil meditativo, é defeito tipográfico que pensa. A imagem desloca o eixo da reflexão sobre o humano.
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus
Verso de abertura de 'Os Ombros Suportam o Mundo', do livro 'Sentimento do Mundo' (1940). Diagnóstico sobre o esgotamento da invocação metafísica diante da catástrofe histórica.
Uma rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos
Definição do romance de Ts'ui Pen em El jardín de senderos que se bifurcan (1941). Borges enuncia a estrutura de muitos-mundos décadas antes de Hugh Everett.
Pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro
Capítulo II de Memórias Póstumas — 'O Emplasto'. Brás Cubas descreve o nascimento da sua ideia fixa, o emplasto anti-hipocondríaco que pretende dar fama universal e que termina por matá-lo.
Casas entre bananeiras / mulheres entre laranjeiras
Versos de 'Cidadezinha Qualquer', poema de 'Alguma Poesia' (1930). Retrato seco da estagnação interiorana, sem sentimentalismo.
Não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjetural
Tese de El idioma analítico de John Wilkins (1942), recolhida em Otras inquisiciones. O ensaio é a fonte da enciclopédia chinesa que abre As palavras e as coisas de Foucault.
João amava Teresa que amava Raimundo
Verso inicial de 'Quadrilha', poema de 'Alguma Poesia' (1930). Catálogo de amores cruzados em sete versos, virou meme antes do meme existir.
Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga
Capítulo VII de Memórias Póstumas — 'O Delírio'. A figura imensa que aparece a Brás Cubas recusa nome unívoco e se declara mãe e inimiga, fórmula que sintetiza a leitura machadiana da existência.
Sou um defunto autor, para quem a campa foi outro berço
Capítulo I de Memórias Póstumas, justificando a inversão do começo. O narrador defende a escolha de abrir pelo fim — o sepulcro como novo nascimento — e prefere a fórmula 'defunto autor' a 'autor defunto'.
Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo
Estrofe do 'Poema de Sete Faces', primeiro poema de 'Alguma Poesia' (1930). A rima Raimundo/mundo encena o limite entre o nome próprio e o cosmos.
A história universal é a história de algumas metáforas
Frase de La esfera de Pascal (1951), recolhida em Otras inquisiciones (1952). Borges argumenta que a invenção de imagens é mais rara que a invenção de teses.
