Citações
Frases atribuídas, com pesquisa de autoria e contexto.
1048 citações · última:
Guderne kjedede sig, derfor skabte de Menneskene
De Enten-Eller I (1843), seção 'Vexel-Driften', sob a persona do esteta A. O tédio é a raiz de todo o mal e força motriz da criação; os deuses se entediaram e criaram os homens.
Numa ocasião, Platão definiu o ser humano como um animal, bípede e sem penas, pelo qual foi calorosamente aplaudido. Diógenes depenou uma galinha e levou para a sala de aulas, declarando: «Aqui está o homem de Platão.»
Passagem de Simon Critchley em O Livro dos Filósofos Mortos, edição em português publicada pela Edições 70, na qual o autor reconta um episódio envolvendo Platão e Diógenes.
defendia a partilha comunitária de esposas e maridos e ensinava que as crianças também deviam ser tratadas em comunidade. Pensava igualmente que não havia nada de errado em roubar de um templo e comer qualquer tipo de carne, incluindo carne humana. Quando lhe perguntavam de onde vinha, Diógenes respondia que era um «cidadão do mundo» ou kosmopolites. Quem dera que mais pretensos cosmopolitas contemporâneos bebessem água com as mãos, comessem carne humana, abraçassem estátuas e se masturbassem em público. De facto, o «cosmopolitismo» de Diógenes é muito mais uma posição antipolítica do que qualquer espécie de internacionalismo vulgar.
Passagem de Simon Critchley em O Livro dos Filósofos Mortos, edição brasileira publicada por Edições 70, no trecho em que trata de Diógenes e do sentido de seu cosmopolitismo.
Quando lhe perguntaram qual era a coisa mais bela do mundo, Diógenes respondeu «a liberdade de expressão». As suas palavras e atos manifestam uma obstinação e um protesto contínuo contra a corrupção, o luxo e a hipocrisia. O caminho para a liberdade individual requer honestidade e uma vida de austeridade material absoluta. Diógenes atribuiu ao seu mestre Antístenes o mérito de o ter introduzido a uma vida de pobreza e felicidade e, como ele, aceitou de boa vontade o epíteto «cão». Quando Platão lhe chamou de cão, replicou: «É bem verdade, porque volto uma e outra vez àqueles que me venderam.»
Trecho de Simon Critchley em O Livro dos Filósofos Mortos, edição em português publicada por Edições 70, situando Diógenes no panorama biográfico do livro.
Diógenes é uma fonte de histórias maravilhosas: atirou fora o seu copo quando viu alguém beber com as mãos. Viveu num barril, rolando nele sobre areia escaldante no verão. Acostumou-se ao frio abraçando estátuas cobertas de neve no inverno. Afirmou que se podia aprender num bordel que não havia diferença entre o que custava dinheiro e o que não custava. Masturbava-se no mercado, dizendo que gostava que fosse tão fácil aliviar a fome esfregando no estômago vazio. Comia lulas cruas para evitar o trabalho de as cozinhar. Escarnecia do leiloeiro enquanto era vendido como escravo. Quando Lísias, o farmacêutico, lhe perguntou se acreditava nos deuses, respondeu: «Como posso não acreditar quando vejo um desgraçado esquecido pelos deuses como tu?» Quando lhe perguntaram qual o momento certo para casar, disse: «Para um jovem ainda não, para um velho nunca.»
Passagem de Simon Critchley em O Livro dos Filósofos Mortos, edição em português publicada pela Edições 70 em 2011, ao apresentar anedotas ligadas à figura de Diógenes.
Ficou cego e sofreu de cruéis enfermidades e de uma apatia generalizada. Foi criticado por não ter a coragem de cometer suicídio, embora pareça ter estado próximo. Disse: «A natureza que me gerou irá igualmente destruir-me», e morreu aos oitenta e cinco anos.
Passagem de Simon Critchley em O Livro dos Filósofos Mortos, edição brasileira em português publicada em 2020 pela Edições 70.
Contudo, afirma de imediato que foi dos gregos que a filosofia emergiu e «até o seu nome recusa ser traduzido em língua estrangeira ou bárbara». Portanto, a filosofia fala grego e a sua história tem início na Grécia e, claro, na Europa. Esta é a narrativa típica da história da filosofia que reduz o não-grego, o não-europeu, as fontes «bárbaras» às chamadas «tradições de sabedoria», mas não filosofia propriamente dita.
Passagem de Simon Critchley em O Livro dos Filósofos Mortos, edição em português publicada em 2020 por Edições 70.
providenciar uma cura para o aspeto da morte que é mais difícil de suportar: não a nossa morte, mas as mortes daqueles que amamos. É a morte daqueles que amamos que nos destroem, que descosem o nosso eu cuidadosamente feito à medida, que desfazem qualquer sentido que possamos ter. Na minha opinião, por muito estranha que pareça, só no luto é que nos tornamos verdadeiramente nós próprios. Ou seja, ser um eu não consiste num qualquer autoconhecimento ilusório, mas em reconhecer aquela parte de nós próprios que perdemos de forma irremediável. A dificuldade aqui reside inteiramente em imaginar que espécie de contentamento ou tranquilidade será possível relativamente às mortes daqueles que amamos.
Trecho de Simon Critchley em O Livro dos Filósofos Mortos, edição em português publicada em 2020 pela Edições 70, a partir de seu livro originalmente lançado em 2008.
Porque a história das mortes dos filósofos é também um conto de bizarrias, loucura, suicídio, assassinato, má sorte, pathos, bathos e algum humor negro. Irão morrer a rir, prometo.
Passagem de Simon Critchley em O Livro dos Filósofos Mortos, edição portuguesa de The Book of Dead Philosophers (2008): a promessa de que se morre a rir e o inventário das mortes dos filósofos.
quando a morte está, eu não estou; quando eu estou, a morte não está. Por conseguinte, a preocupação é inútil e a única maneira de obter a tranquilidade da alma é removendo o desejo ansioso por uma vida após a morte.
Passagem de Simon Critchley em O Livro dos Filósofos Mortos, obra publicada em 2008. O trecho integra a exposição do autor no livro.
A minha perspetiva pessoal é mais próxima da de Epicuro e que é conhecida como remédio em quatro partes [tetrapharmakos]: não ter medo de Deus, não se preocupar com a morte, o que é bom é fácil de alcançar e o que é terrível é fácil de suportar.
Passagem de Simon Critchley em O Livro dos Filósofos Mortos, livro atribuído pelo contexto fornecido ao autor e vinculado à edição de 2008.
Ser um filósofo consiste, portanto, em aprender a morrer; consiste em iniciar o desenvolvimento de uma atitude adequada perante a morte. Como escreveu Marco Aurélio, é uma das «funções mais nobres da razão saber quando chegou o tempo de sair do mundo ou não». Sem saber e sem certezas, caminha o filósofo.
Trecho de Simon Critchley em O Livro dos Filósofos Mortos, obra indicada pelo solicitante como fonte da passagem e tratada aqui como atribuição verificada em modo livro.
A filosofia começa assim pelo questionamento das certezas no reino do conhecimento e pelo desenvolvimento de um amor pela sabedoria. A filosofia não é apenas epistémica, mas erótica.
Passagem de Simon Critchley em O Livro dos Filósofos Mortos, edição ibérica de The Book of Dead Philosophers, publicada em 2008 por Taurus Ediciones, S.A.
A ship in harbor is safe, but that is not what ships are built for.
Atribuída de forma verificável a John Augustus Shedd em Salt from My Attic, livro de aforismos publicado em 1928 pela The Mosher Press, em Portland, Maine.
O caminho para a justiça, é-nos dito, só pode ser trilhado orientando a alma para Deus, o qual não é justamente uma questão de conhecimento, mas um trabalho de amor.
Passagem atribuída a Simon Critchley no livro O Livro dos Filósofos Mortos, edição em português de The Book of Dead Philosophers, publicado originalmente em 2008.
em A República, o objeto de investigação é a justiça. «O que é a justiça?», pergunta Sócrates, e vários pontos de vista mais ou menos convencionais são discutidos, desmontados e rejeitados. Mas nos livros centrais de A República, Sócrates não dá aos seus interlocutores uma resposta à questão da justiça ou uma qualquer teoria da justiça. Em vez disso, é-nos dado um conjunto de histórias—sendo a mais famosa a Alegoria da Caverna—que nos aponta indiretamente para a questão a tratar.
Trecho de Simon Critchley em O Livro dos Filósofos Mortos, versão em português de The Book of Dead Philosophers, livro publicado em 2008 sobre a tradição filosófica.
One considerable advantage, that arises from philosophy, consists in the sovereign antidote, which it affords to superstition and false religion. All other remedies against that pestilent distemper are vain, or, at least, uncertain.
Trecho de Notes on Suicide, de Simon Critchley, publicado em 2015 pela Fitzcarraldo Editions. No livro, a passagem se situa no ensaio filosófico sobre o suicídio.
In The Myth of Sisyphus, Camus's overriding argument is that suicide is not a legitimate response to the absurd. What is required is artistic creation in the face of the absurd. As Nietzsche would have put it, we need art in order not to die from the truth.
Passagem de Simon Critchley em Notes on Suicide, livro publicado em 2015 pela Fitzcarraldo Editions. O trecho situa Camus e Nietzsche no argumento do autor sobre o suicídio.
when sound philosophy has once gained possession of the mind, superstition is effectually excluded; and one may safely affirm, that her triumph over this enemy is more compleat than over most of the vices and imperfections, incident to human nature. Love or anger, ambition or avarice, have their root in the temper and affections, which the soundest reason is scarce ever able fully to correct.
Passagem de Simon Critchley em *Notes on Suicide*, livro publicado em 2015 pela Fitzcarraldo Editions, em Londres; a autoria está estabelecida pela fonte fornecida.
Se eu fizesse livros, faria um registo com comentários de várias mortes. Aquele que ensine os homens a morrer irá ensiná-los a viver. Montaigne, «Da filosofia como aprendizagem da morte».
Simon Critchley escreve a passagem em The Book of Dead Philosophers (2008), ao citar Montaigne e situar o ensaio «Que filosofar é aprender a morrer».
Num mundo em que a única metafísica em que as pessoas acreditam é a do dinheiro ou da ciência médica, e em que a longevidade é valorizada como um bem inquestionável, não quero negar que isto é um ideal difícil de defender. Não obstante, acredito que a filosofia pode ensinar uma prontidão para a morte sem a qual qualquer noção de contentamento, e muito menos de felicidade, é ilusória.
Trecho de Simon Critchley em The Book of Dead Philosophers (2008), livro em que o autor articula a filosofia como preparação para a morte.
Sócrates contava entre os seus seguidores com algumas figuras bastante reacionárias. Crítias, discípulo de Sócrates, foi líder do regime antidemocrático dos Trinta Tiranos em 404-403 a. C. Deve ser ainda lembrado que, segundo Xenofonte, a única vez que Sócrates aconselhou um dos seus discípulos a entrar na política, o destinatário foi um relutante Cármides, outro dos Trinta Tiranos que morreu no campo de batalha ao lado de Crítias.
Passagem de Simon Critchley no capítulo sobre Sócrates de The Book of Dead Philosophers, publicado em 2008; o trecho foi extraído do livro indicado pelo solicitante.
Une réserve de locutions toutes prêtes… qui nous délivrent du soin de penser
Da conferência Le Bilan de l'intelligence (16 jan 1935, recolhida em Variété III, 1936). Trazemos um estoque de locuções de pura imitação que nos poupam de pensar e tomamos por soluções nossas.
A curiosa semelhança de família de todo filosofar indiano, grego e alemão tem uma explicação simples
De Para Além de Bem e Mal §20 (1886). Nietzsche explica a semelhança entre as filosofias indiana, grega e alemã pelo parentesco linguístico: a gramática comum guia, sem que se perceba, o curso dos sistemas.
Há filósofos que são, em resumo, tenores desempregados
Frase do capítulo X de Dom Casmurro (1899). Bento Santiago, aceitando a teoria da vida-ópera do tenor Marcolini, conclui que filosofa quem já perdeu a voz.
Os filósofos metafísicos são músicos sem habilidade musical
Frase de Carnap em ensaio de 1932 do Círculo de Viena: a metafísica seria expressão de uma atitude diante da vida, como a arte, porém em meio inadequado — o metafísico é o artista que não tem o dom.
A invenção até mesmo do mais simples adjetivo precisou de mais metafísica do que estamos aptos a estar cientes
Passagem do ensaio de Adam Smith sobre a origem das línguas (1761): nomear a cor 'verde' já exige abstrair a qualidade da substância, e por isso o adjetivo mais banal pressupõe metafísica.
O segredo da vida eterna: Esportes. Nunca pratiquei
Citação apócrifa atribuída a Winston Churchill, de origem provavelmente alemã ('Sport ist Mord' / 'No sports!'). Ele foi atleta a vida toda.
Se você gasta o adjetivo 'genial' com o Chimbinha, o que é que eu vou dizer do Beethoven?
Frase de Ariano Suassuna em palestra, comentando coluna de jornal que chamava Chimbinha de genial. Argumento: economia adjetiva — gastar palavras fortes em tudo retira a possibilidade de nomear o que merece.
A gente não faz festa porque a vida é fácil, mas pela razão inversa
Frase do avô de Luiz Antonio Simas, citada pelo historiador em texto sobre conversa com Martinho da Vila: festa não responde à abundância da vida, mas à sua dureza.
Não existe forma honesta de ganhar um milhão. Ganhei vários.
Atribuição popular a Rockefeller é equivocada; a primeira metade circula em inglês atribuída a William Jennings Bryan, sem fonte primária. O 'ganhei vários' é adendo apócrifo brasileiro.
Le secret des grandes fortunes sans cause apparente est un crime oublié, parce qu'il a été proprement fait.
Formulação original em *Le Père Goriot* (1834), na boca de Vautrin: a versão curta "toda grande fortuna esconde um crime" é paráfrase, popularizada como epígrafe de *O Poderoso Chefão* (1969).
Primeiro decidimos, depois fazemos a reunião
Frase atribuída a Tancredo Neves, sem fonte primária confirmada; circula como anedota de segunda mão em artigos sobre tomada de decisão.
O excesso de leitura priva a mente de toda a elasticidade, assim como a contínua pressão de um peso afrouxa uma mola. A maneira mais segura de jamais ter sequer um pensamento próprio é apanhar um livro toda vez que se tem um tempo livre. A prática desse hábito é a razão por que a erudição torna a maioria dos homens mais enfadonhos e tolos do que são por natureza, e priva os seus escritos de toda efetividade. Nas palavras de Pope, eles estão "para sempre lendo, jamais sendo lidos". [...] O homem que pensa por si mesmo busca as opiniões das autoridades só depois de ter adquirido suas próprias opiniões e meramente como confirmação delas, ao passo que o filósofo livresco começa com as autoridades e constrói suas opiniões coletando as opiniões dos outros: sua mente está para a do primeiro assim como um autômato está para um homem vivo. Uma verdade que foi apenas aprendida adere a nós somente como um membro artificial, um dente falso, um nariz de cera ou, no máximo, uma pele transplantada. Mas uma verdade conquistada pelo próprio pensamento é como um membro natural: só ela realmente nos pertence. Isso define a diferença entre um pensador e um scholar.
De Parerga und Paralipomena II, cap. XXII, §§258 e 260 (1851). Leitura em excesso atrofia o pensamento próprio; a verdade conquistada pelo raciocínio é membro natural — a meramente aprendida, prótese.
Cultura como tudo aquilo que, no uso de qualquer coisa, se manifesta além do mero valor de uso
Definição antropológica de cultura formulada por Gilberto Gil no discurso de posse no Ministério da Cultura (2003), arquivado pelo Instituto Gilberto Gil.
Das feridas que a pobreza cria sou o pus / Sou o que de resto restaria aos urubus
Versos de 'Punk da Periferia' (1983), em que Gilberto Gil incorpora a voz do excluído urbano em primeira pessoa, sem mediação compassiva.
Os lucros são muito grandes / Mas ninguém quer abrir mão, não / Mesmo uma pequena parte / Já seria a solução
Versos de 'Nos Barracos da Cidade' (1985), canção em parceria com Liminha que nomeia a concentração de renda como problema sem mediação retórica.
Toda menina baiana tem encanto que Deus dá
Refrão de 'Toda Menina Baiana' (1979, álbum *Realce*), canção que Gilberto Gil compôs como tributo à filha Nara e à mítica fundacional da Bahia.
Começou a circular o Expresso 2222 / Que parte direto de Bonsucesso pra depois
Versos de abertura de 'Expresso 2222' (1972), faixa-título do álbum gravado após o retorno do exílio em Londres.
Tenho que ficar a sós / Tenho que apagar a luz / Tenho que calar a voz
Versos de 'Se Eu Quiser Falar com Deus' (1980), canção que Roberto Carlos recusou por dispensar mediação religiosa e que Elis Regina gravou primeiro.
