Citações
Frases atribuídas, com pesquisa de autoria e contexto.
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Se você gasta o adjetivo 'genial' com o Chimbinha, o que é que eu vou dizer do Beethoven?
Frase de Ariano Suassuna em palestra, comentando coluna de jornal que chamava Chimbinha de genial. Argumento: economia adjetiva — gastar palavras fortes em tudo retira a possibilidade de nomear o que merece.
A gente não faz festa porque a vida é fácil, mas pela razão inversa
Frase do avô de Luiz Antonio Simas, citada pelo historiador em texto sobre conversa com Martinho da Vila: festa não responde à abundância da vida, mas à sua dureza.
Não existe forma honesta de ganhar um milhão. Ganhei vários.
Atribuição popular a Rockefeller é equivocada; a primeira metade circula em inglês atribuída a William Jennings Bryan, sem fonte primária. O 'ganhei vários' é adendo apócrifo brasileiro.
Le secret des grandes fortunes sans cause apparente est un crime oublié, parce qu'il a été proprement fait.
Formulação original em *Le Père Goriot* (1834), na boca de Vautrin: a versão curta "toda grande fortuna esconde um crime" é paráfrase, popularizada como epígrafe de *O Poderoso Chefão* (1969).
Primeiro decidimos, depois fazemos a reunião
Frase atribuída a Tancredo Neves, sem fonte primária confirmada; circula como anedota de segunda mão em artigos sobre tomada de decisão.
O excesso de leitura priva a mente de toda a elasticidade, assim como a contínua pressão de um peso afrouxa uma mola. A maneira mais segura de jamais ter sequer um pensamento próprio é apanhar um livro toda vez que se tem um tempo livre. A prática desse hábito é a razão por que a erudição torna a maioria dos homens mais enfadonhos e tolos do que são por natureza, e priva os seus escritos de toda efetividade. Nas palavras de Pope, eles estão "para sempre lendo, jamais sendo lidos". [...] O homem que pensa por si mesmo busca as opiniões das autoridades só depois de ter adquirido suas próprias opiniões e meramente como confirmação delas, ao passo que o filósofo livresco começa com as autoridades e constrói suas opiniões coletando as opiniões dos outros: sua mente está para a do primeiro assim como um autômato está para um homem vivo. Uma verdade que foi apenas aprendida adere a nós somente como um membro artificial, um dente falso, um nariz de cera ou, no máximo, uma pele transplantada. Mas uma verdade conquistada pelo próprio pensamento é como um membro natural: só ela realmente nos pertence. Isso define a diferença entre um pensador e um scholar.
De Parerga und Paralipomena II, cap. XXII, §§258 e 260 (1851). Leitura em excesso atrofia o pensamento próprio; a verdade conquistada pelo raciocínio é membro natural — a meramente aprendida, prótese.
Cultura como tudo aquilo que, no uso de qualquer coisa, se manifesta além do mero valor de uso
Definição antropológica de cultura formulada por Gilberto Gil no discurso de posse no Ministério da Cultura (2003), arquivado pelo Instituto Gilberto Gil.
Das feridas que a pobreza cria sou o pus / Sou o que de resto restaria aos urubus
Versos de 'Punk da Periferia' (1983), em que Gilberto Gil incorpora a voz do excluído urbano em primeira pessoa, sem mediação compassiva.
Os lucros são muito grandes / Mas ninguém quer abrir mão, não / Mesmo uma pequena parte / Já seria a solução
Versos de 'Nos Barracos da Cidade' (1985), canção em parceria com Liminha que nomeia a concentração de renda como problema sem mediação retórica.
Toda menina baiana tem encanto que Deus dá
Refrão de 'Toda Menina Baiana' (1979, álbum *Realce*), canção que Gilberto Gil compôs como tributo à filha Nara e à mítica fundacional da Bahia.
Começou a circular o Expresso 2222 / Que parte direto de Bonsucesso pra depois
Versos de abertura de 'Expresso 2222' (1972), faixa-título do álbum gravado após o retorno do exílio em Londres.
Tenho que ficar a sós / Tenho que apagar a luz / Tenho que calar a voz
Versos de 'Se Eu Quiser Falar com Deus' (1980), canção que Roberto Carlos recusou por dispensar mediação religiosa e que Elis Regina gravou primeiro.
A negritude na minha família apareceu comigo, praticamente
Fala de Gilberto Gil ao Roda Viva (1996) sobre o projeto de branqueamento da própria família e a sua afirmação tardia da identidade negra.
Quem diz uma coisa com dez palavras é porque não pode dizer com cinco
Aforismo de Gilberto Gil sobre concisão verbal, registrado em entrevista à revista *ISTOÉ Gente* em dezembro de 2004, durante seu período de Ministro da Cultura.
Sou um ministro hacker. Um cantor hacker
Resposta de Gilberto Gil em junho de 2008 sobre a alcunha 'ministro hacker' que o sociólogo Sérgio Amadeu lhe atribuiu durante a gestão no MinC.
O acesso à cultura é um direito básico de cidadania, assim como o direito à educação, à saúde
Equiparação que Gilberto Gil fez no discurso de posse no Ministério da Cultura (2003), inscrevendo cultura no rol dos direitos sociais constitucionais.
Não cabe ao Estado fazer cultura, mas, sim, criar condições de acesso universal aos bens simbólicos
Frase central do discurso de posse de Gilberto Gil como Ministro da Cultura, em 2 de janeiro de 2003, definindo o papel do Estado em política cultural.
Alô, alô, seu Chacrinha, velho guerreiro / Alô, alô, Terezinha, Rio de Janeiro
Saudações de 'Aquele Abraço' (1969) que entronizam o apresentador Chacrinha como referência tropicalista contra a TV brasileira bem-comportada.
Aqui é o fim do mundo
Refrão de 'Marginália II' (1968), parceria de Gilberto Gil com Torquato Neto no álbum tropicalista *Gilberto Gil* gravado com Os Mutantes.
A refavela revela o salto / que o preto pobre tenta dar / quando se arranca do seu barraco / prum bloco do BNH
Versos de 'Refavela' (1977), em que Gilberto Gil nomeia o reassentamento das favelas em conjuntos habitacionais como salto incompleto do preto pobre.
Abacateiro, acataremos teu ato
Verso da faixa 'Refazenda' (1975), em que Gilberto Gil recompõe o universo agrícola e cosmológico do Recôncavo baiano após o exílio.
O rei da brincadeira, ê José / O rei da confusão, ê João
Versos de abertura de 'Domingo no Parque' (1967, com Os Mutantes), peça inaugural do Tropicalismo apresentada no III Festival da Record.
O amor da gente é como um grão / Uma semente de ilusão / Tem que morrer pra germinar
Versos centrais de 'Drão' (1982, álbum *Um Banda Um*), em que Gilberto Gil despede-se da ex-mulher Sandra Gadelha pela imagem agrícola da semente.
Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá
Refrão de 'Andar com Fé' (1982, álbum *Um Banda Um*), em que Gilberto Gil distribui a fé por objetos profanos e adota oralidade nordestina como decisão de língua.
O Rio de Janeiro continua lindo / O Rio de Janeiro continua sendo
Versos de abertura de 'Aquele Abraço' (1969), samba que Gilberto Gil compôs como despedida do Brasil às vésperas do exílio em Londres.
A música é o silêncio que existe entre as notas: formulação migrante, atribuição duvidosa a Jobim
Aforismo sobre música amplamente atribuído a Tom Jobim em portais de citações brasileiros. Variantes da mesma fórmula são atribuídas a Mozart, Debussy, Miles Davis e Claude Debussy em fontes internacionais. Não há fonte primária de Jobim que confirme a frase.
O Brasil não é para principiantes — atribuição não documentada por fonte primária
Frase amplamente atribuída a Tom Jobim. A versão mais difundida diz ter sido pronunciada ao fotógrafo americano David Drew Zingg c. 1961, mas não há registro primário (gravação, entrevista publicada, escrito de Jobim) que confirme a frase ipsis litteris.
A música brasileira, que ia muito bem, de repente acabou
Declaração de Tom Jobim à BBC em junho de 1986, em entrevista sobre o impacto da ditadura militar (1964-1985) na produção cultural brasileira. Diagnóstico retrospectivo, no primeiro ano após a redemocratização.
Eu vivo no mato. Eu vivo dentro da floresta da Tijuca
Resposta de Tom Jobim no Roda Viva (20 de dezembro de 1993) sobre sua vida cotidiana e seus interesses ecológicos. A frase situa o compositor da Garota de Ipanema como morador de mata, não de orla.
O Rio que eu conheci não existe mais
Resposta de Tom Jobim no Roda Viva (20 de dezembro de 1993) sobre as transformações da cidade que aparece em sua obra. Diagnóstico sem nostalgia performática: a cidade-musa é descrita como objeto perdido.
Esclareci que eu não era comunista, era pianista
Resposta de Tom Jobim no Roda Viva (20 de dezembro de 1993) sobre uma detenção política durante a Era Vargas. Recurso humorístico para lidar com episódio de repressão sem dramatização.
Se eu tivesse nascido na Hungria, certamente faria música húngara
Resposta de Tom Jobim no programa Roda Viva (TV Cultura, 20 de dezembro de 1993) sobre por que faz música brasileira. Formulação que descarta tanto o nacionalismo programático quanto o internacionalismo descontextualizado.
Corcovado: música e letra de Tom Jobim, gravada por João Gilberto em 1960
Composta por Tom Jobim em 1960 (música e letra), gravada por João Gilberto no álbum O Amor, o Sorriso e a Flor (1960). Letra inglesa posterior de Gene Lees como 'Quiet Nights of Quiet Stars'.
Minha alma canta, vejo o Rio de Janeiro
Verso de abertura de 'Samba do Avião' (1962), música e letra de Tom Jobim, escrita para o filme italiano Copacabana Palace. Estreada no Au Bon Gourmet em agosto de 1962, primeira gravação por Elza Laranjeira em outubro do mesmo ano.
'Uma criança que lê será um adulto que pensa' — não é frase atribuível a Monteiro Lobato
Aforismo motivacional sobre leitura, sem fonte primária identificada na obra de Lobato, atribuído indiscriminadamente também a Victor Hugo, Cervantes e outros autores. Apócrifo de origem incerta.
Desafinado — bossa nova como réplica aos críticos
Composta por Tom Jobim e Newton Mendonça, gravada por João Gilberto em novembro de 1958, lançada em fevereiro de 1959 no álbum Chega de Saudade. Replica diretamente à acusação de que bossa nova era 'música para cantores desafinados'.
'O Brasil é um imenso hospital' — não é frase de Monteiro Lobato
A frase é de Miguel Pereira, médico, professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em discurso de 11 de outubro de 1916. Confunde-se com Lobato pela proximidade temática com a campanha sanitarista que ele divulgou.
Chega de Saudade — marco inaugural da bossa nova
Composta em 1956 por Jobim e Vinicius, gravada por Elizeth Cardoso (abril 1958) e por João Gilberto (julho 1958, lançada em agosto). A sessão de Gilberto é considerada o marco inicial da bossa nova.
'O petróleo é nosso' — não é frase de Monteiro Lobato
O slogan da campanha nacionalista do petróleo é frequentemente atribuído a Lobato, mas foi cunhado por Otacílio Raínho em 1948 e popularizado pelo movimento nacionalista que culminou na criação da Petrobras (1953).
Rua, espada nua / Boia no céu imensa e amarela
Versos de abertura de 'Luiza' (1981), música e letra de Tom Jobim, composta para a abertura da telenovela Brilhante (Globo, 1981) e regravada no álbum Passarim (1987).
