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❝ Citação

What I care about is the Way, which goes beyond skill

Capítulo 3, Yǎngshēngzhǔ 養生主 (“Aquilo que mantém a vida”). O cozinheiro Páodīng (庖丁) disseca um boi diante do duque Wén-huì. Trecho central em chinês: 依乎天理,批大郤,導大窾,因其固然 (“Apoio-me na disposição natural, abro as grandes fendas, conduzo pelas grandes cavidades, sigo aquilo que é assim por si”) e 彼節者有間,而刀刃者無厚,以無厚入有閒,恢恢乎其於遊刃必有餘地矣 (“As articulações têm intervalo, e o fio da lâmina não tem espessura: introduzir o sem-espessura no que tem intervalo deixa a lâmina vagando com sobra de espaço”). Tradução de Watson (1968): “What I care about is the Way (dào), which goes beyond skill. (…) I go along with the natural makeup, strike in the big hollows, guide the knife through the big openings, and follow things as they are.”

A parábola é leitura clássica de wú-wéi 無為 — não inação, mas ação que se ajusta sem forçar. Páodīng diz que a lâmina dele está há dezenove anos cortando milhares de bois e o gume ainda parece recém-saído da pedra de afiar; o cozinheiro comum troca de faca todo mês porque corta; o bom cozinheiro troca todo ano porque retalha; ele desliza pelo intervalo. O duque conclui: “Ouvi as palavras de Páodīng e aprendi como cuidar da vida.” A leitura econômica do texto liga a habilidade técnica (技 ) ao dào — a perícia avançada deixa de ser técnica e passa a ser sintonia.

Anne Cheng e A. C. Graham (Chuang-Tzu: The Inner Chapters, 1981) leem o trecho como o exemplo paradigmático do tema dos artesãos virtuosos espalhados pelos Internos (rodeiro, nadador, fabricante de cintos). Recepção forte no Japão Tokugawa (Yagyū Munenori, Heihō kadensho, 1632, cita a parábola na discussão do mushin) e no zen-budismo, onde se converte em tópos da meditação como afinação prática.