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Zhuangzi questiona a caveira

Capítulo 18, Zhìlè 至樂. Zhuangzi vê uma caveira (髑髏 dúlóu) à beira do caminho. Bate com o chicote e pergunta: morreste de excesso na vida, queda de reino, espada, fome, frio, ou velhice? Usa a caveira de travesseiro e dorme. À noite ela aparece em sonho. Watson (1968): “The skull said, ‘You chatter like a rhetorician and all your words betray the entanglements of a living man. The dead know nothing of these! Would you like to hear a lecture on the dead?’ (…) ‘Among the dead there are no rulers above, no subjects below, and no chores of the four seasons. With nothing to do, our springs and autumns are as endless as heaven and earth. A king facing south on his throne could have no more happiness than this.’”

Zhuangzi oferece à caveira a chance de voltar à vida — junto à família, aos amigos, com sua aparência. A caveira recusa: “Como deixaria a felicidade do rei voltado para o sul para voltar à canseira humana?” O episódio é variação do tema do capítulo (a felicidade suprema é não buscá-la) e par direto da morte da esposa, no mesmo capítulo. O elemento técnico é a inversão do tópos da consolação fúnebre: a caveira ensina o vivo, não o contrário.

A imagem teve recepção visual extensa. O motivo do filósofo dialogando com caveira aparece em pinturas Sòng (Lǐ Sōng, séc. XII) e atravessa a pintura Yuán e Míng. Sūn Wǎn (séc. XVI) compara o monólogo da caveira ao “Hamlet diante de Yorick” em comentário do Wǎnlì — uma das primeiras leituras comparativas registradas. No Ocidente, Borges menciona o trecho num ensaio sobre sonhos. A. C. Graham agrupa a passagem com os “diálogos com mortos” do livro como formação literária zhuangzista que serve de modelo aos yuèfǔ posteriores.