All men know the use of the useful
Capítulo 4, Rénjiānshì 人間世 (“No mundo dos homens”). O carpinteiro Shí (匠石) passa por um santuário e vê um carvalho tão grande que cobre a aldeia, mas segue sem olhar. Ao discípulo que estranha, explica: a madeira é imprestável — afunda como barco, racha como caixão, vaza como vaso, apodrece como porta, atrai cupim como pilar. À noite o carvalho aparece em sonho ao carpinteiro: 予求無所可用久矣!幾死,乃今得之,為予大用 (“Há muito procuro o sem-uso; quase morri várias vezes, e finalmente consegui — é o meu grande uso”). Watson (1968): “I’ve been trying a long time to be of no use, and though I almost died, I’ve finally got it. This is of great use to me.”
A formulação técnica do tema — wúyòng zhī yòng 無用之用, “o uso do não-uso” — fecha o capítulo. Variação no capítulo 1 com a “árvore-paraíso” (樗 chū) de Hui Shi: árvore tão tortuosa que nenhum carpinteiro a corta, e por isso vive até a velhice. Zhuangzi opõe a leitura utilitária dos Mohistas (todo objeto vale pelo que serve) e a meritocracia confuciana (todo homem serve a um cargo): a inutilidade aparente é estratégia de preservação num mundo onde a utilidade convoca o machado.
O motivo atravessa a poesia e a pintura chinesas. Tao Yuanming retoma como justificativa do retraimento. No séc. XX, Camus discute a passagem em notas dos Carnets (1947) como prefiguração de uma ética da recusa. François Jullien (Éloge de la fadeur, 1991) lê a sequência das árvores zhuangzistas como gênese de uma estética da insignificância produtiva. A. C. Graham nota o paralelo com a anedota da árvore em Lao Tzu (Dàodéjīng 76).
