↓ Ir para o conteúdo principal

← todas as notas

XI Encontro de Chinês Instrumental

Anotações do décimo primeiro encontro de Chinês Instrumental, conduzido por Si Fu, com Claudio Teixeira e Daniel Araújo, em sua primeira aula na série. Claudio propôs revisar os conceitos básicos para receber Daniel, e Si Fu aceitou refazer, com ele no comando, a mesma aula de abertura que já tinha dado a Claudio no início da série.

Daniel Araújo em sua primeira aula na série de Chinês Instrumental

Cavar a própria cova
#

Si Fu abriu com uma imagem de filme. Um sequestrador entrega a pá ao refém e manda cavar, arma na cabeça dele. Claudio nomeou a cena, cavar a própria cova, e Si Fu usou a imagem para propor a Claudio que revisasse, para Daniel, tudo que tinha aprendido na própria primeira aula da série: os conceitos gerais do Cantonês Instrumental, a diferença entre Mandarim e Cantonês, qual é a língua oficial. É também, para Si Fu, uma forma de gravar melhor o próprio conteúdo, ensinando de novo o que já se aprendeu.

Kung Fu como pano de fundo, e o Sam Faat guardado para depois
#

Segundo Claudio, a atividade nasceu como uma maneira, um tanto irônica, de arranjar desculpa para trabalhar mais a vida com Kung Fu: o Cantonês Instrumental existe para que o contato com Si Fu, a orientação dele, sirvam de pano de fundo para outra coisa. Claudio também introduziu o termo Sam Faat 心法, mas Si Fu preferiu não entrar nele naquele encontro, deixando o tema para uma próxima oportunidade.

Mandarim oficial, Cantonês sem sistema
#

Si Fu explicou a Daniel que, dentro do que se chama língua chinesa, o idioma oficial é o Mandarim, que por ser oficial tem um sistema de transliteração próprio, o Pinyin, com cinco tons (primeiro, segundo, terceiro, quarto e o tom neutro). Já o Cantonês, contou Si Fu, não tem sistema oficial de romanização, embora se possa escrever com letras. Existem sistemas paralelos, alguns com oito tons, outros com nove, e nenhum deles reconhecido pelo governo chinês.

Si Fu contou que a própria família Kung Fu tem um sistema de transliteração próprio, desenvolvido por Si Suk Leonardo Mordente. O que determina a grafia em uso é o contexto em que o termo é compreendido; seguir ou não esse sistema fica a critério de cada um.

Denominação Moy Yat Ving Tsun: um jargão de compromisso
#

Claudio levantou o termo denominação, usado dentro da família para nomear a estrutura genealógica que se organiza a partir de Si Taai Gung. Thiago Silva resumiu: a Denominação Moy Yat Ving Tsun foi o nome que Si Gung deu ao compromisso de Si Taai Gung de transmitir o sistema da forma pura e completa como o recebeu aos seus descendentes legítimos. Si Fu aprovou a formulação sem querer arriscar piorá-la.

Denominar é simplesmente dar nome a alguma coisa, nesse caso um compromisso pessoal com a transmissão pura e completa do sistema, e o termo foi se transformando ao longo dos anos. Jargão, insistiu Si Fu, é o conjunto de palavras de um grupo que quer dizer algo específico, sem carga pejorativa. O risco é usar o termo fora desse contexto, como já aconteceu com um discípulo que repetia alguns desses termos sem entender exatamente a que se referiam, mesmo com a melhor das intenções.

Guangdong, Toisan e por que o Cantonês pesa na família
#

Claudio atribuiu a relevância do Cantonês na família a Si Taai Gung Moy Yat e à origem do sistema. Si Fu corrigiu o ponto e devolveu a causa à geografia: segundo ele, o Cantonês pesa porque o sistema se desenvolveu na província de Guangdong, de onde vem o próprio nome da língua.

Si Taai Gung Moy Yat vinha da província de Toi San e falava toisanês, que Si Fu descreveu como derivação do Cantonês, semelhante mas distinta. A proximidade geográfica dava a Si Taai Gung familiaridade com o Cantonês, que originalmente não era a língua dele.

A diferença entre Mandarim e Cantonês é gritante ao ouvido, a ponto de uma declaração de amor em Cantonês soar como briga; já a diferença entre toisanês e Cantonês é mais sutil, embora perceptível.

O contexto resolve: manga, guarda-chuva e os tons
#

Daniel perguntou como as famílias decidem o tom certo de um termo, já que trocar o tom troca o significado. Si Fu respondeu com o exemplo da manga: pensar numa manga amarela puxa para fruta; a manga da camisa, cortada e colocada sobre a mesa, puxa para outro sentido, com o mesmo som exato. O mesmo vale para guarda, guarda-chuva, guarda-roupa: quem decide o sentido é o contexto. Si Fu ainda comentou que “paraguas”, em espanhol, é mais coerente que “guarda-chuva”, porque é a chuva que precisa de guarda-chuva.

Si Fu percorreu a série de “ma”, que muda de sentido conforme o tom: mãe, cavalo, gritar, e a partícula de pergunta no tom neutro. Quem ouve um estrangeiro errar o tom costuma interpretar como erro de pronúncia, do mesmo jeito que se nota quando um estrangeiro erra a gramática do português.

Si Fu contou uma história de família, nos Estados Unidos. A filha de uma prima dele, alfabetizada em inglês, pediu a Si Suk Ricardo “uma caipiroca”, querendo dizer caipirosca, a versão com vodca da caipirinha. Intrigada com a correção, ela explicou sua lógica: o pai dela usava uma gíria para dizer que alguém era maluco, e ela tinha deduzido que “caipiroca” seria uma “caipirinha maluca”, trocando a cachaça pela vodca. Ninguém se ofendeu com o pedido, e todo mundo entendeu que ela tinha simplesmente errado a palavra.

É assim, na visão de Si Fu, que se aprende um idioma novo, e sobretudo o Cantonês: sem medo de errar, porque o medo trava, e com o compromisso de aprender com substância e profundidade.

Escutar por inteiro: o gesto chinês e o vício ocidental
#

Segundo Si Fu, o interlocutor chinês tende a ficar mais contido durante a escuta, sem confirmar com a cabeça o tempo inteiro como é comum no Ocidente. Confirmar com a cabeça o tempo inteiro é um movimento precipitado dentro da lógica chinesa. O ouvinte espera o contexto inteiro da fala para saber exatamente o que está sendo dito, e fica receptivo até encontrar o momento certo de responder. Si Fu chegou a propor uma proporção: 99,9% de recepção, 0,1% de emissão.

Surgiu na aula a observação de que as interações online, sobretudo depois da pandemia, viraram esse automatismo de confirmação sem que a pessoa perceba que está confirmando. Numa disputa ideológica, disse Si Fu, uma única palavra já entrega a posição de quem fala, gerando concordância ou discordância antes mesmo de a pessoa terminar de falar. Si Fu deu o exemplo de um vídeo, da época de uma eleição presidencial no Brasil, em que alguém atribuía propostas de um candidato ao adversário e vice-versa, e o entrevistado reagia de acordo com quem achava que tinha dito aquilo, não com o conteúdo em si. Levado ao extremo, esse processo faz a pessoa reagir ao rótulo político antes mesmo de processar o conteúdo dito.

A língua que ordena o pensamento
#

O alfabeto ocidental corre numa só direção, da esquerda para a direita, enquanto o chinês pode ser escrito da direita para a esquerda ou de cima para baixo, nunca de baixo para cima. Isso obriga quem lê a captar o todo da frase antes de decifrar a ordem das palavras.

Si Fu ergue a mão ao falar das direções em que o chinês pode ser escrito

Si Fu usou nomes próprios como exemplo. Quem já processou visualmente “Julio Camacho” ou “Daniel Araújo” reconhece de imediato que o nome está invertido se aparecer ao contrário, sem precisar ler letra por letra. O mesmo vale para um ideograma como o de cavalo: dá para reconhecer a imagem sem saber pronunciar o som, porque a língua chinesa não se apoia apenas na junção de fonemas como as línguas ocidentais.

Surgiu na aula o ponto de que, em chinês, o verbo costuma vir depois na frase, o que reforça a necessidade de esperar o fim para entender. Si Fu confirmou a regra geral e observou que há frases sem verbo, tal como em português.

Lap Sau: um ideograma fora do MDBG
#

O Cantonês tem uma característica que soa estranha à primeira vista. Existem palavras faladas que parecem não ter ideograma associado a elas nos dicionários abertos. O lap de Lap Sau, técnica associada ao Siu Nim Tau, foi um desses casos discutidos na aula.

Como exercício, o grupo pediu o termo a um modelo de linguagem, que devolveu dois ideogramas candidatos, e depois conferiu cada um no MDBG. O primeiro carrega a ideia de puxar para si, que é o sentido de Lap Sau, mas não se pronuncia lap. O segundo se pronuncia lap, e quer dizer agarrar, que não é o que a técnica faz.

Si Fu segura o próprio antebraço ao explicar que Lap Sau tem mais de puxar do que de agarrar

Ou seja, um tem o sentido certo e o som errado, o outro tem o som certo e o sentido errado. Segundo Si Fu, é o segundo que aparece com mais frequência na literatura do sistema, justamente por falta de um ideograma exato.

Quando uma palavra cantonesa fica sem essa ancoragem escrita, às vezes se recorre a um terceiro ideograma qualquer, escolhido só pelo som, sem relação com o sentido original. No caso do lap, serviria qualquer ideograma que soasse lap, e o contexto encarregaria o resto: o que se busca ali é o interlocutor captar a intenção de quem fala. Si Fu tratou o caso como exceção da língua, com outros exemplos possíveis, mas exceção.

Pesquisa posterior

O termo tem grafia registrada fora do MDBG: Lap Sau 拿手, componente do Siu Nim Tau no material oficial do programa (PMYVTIM 2017, módulo SNT), com Lap Da 拿打 como a variante que agrega o soco. O caractere é 拿, o mesmo “primeiro ideograma” levantado em aula, com o sentido certo. A leitura em Mandarim é ná e em Cantonês naa4 (MDBG e CantoDict), o que confirma o descompasso notado na aula entre o som “lap” da família e a romanização padrão do caractere.

A emoção contida e a piada impossível em Chinês
#

Si Fu partiu do inglês para chegar ao ponto. Morando nos Estados Unidos, ouve com frequência a crítica de que o americano é sucinto demais, pouco criativo; para ele, isso vem da própria língua, objetiva demais, que por isso precisa compensar com gestos e interjeições mais expressivos. O resultado soa exagerado, às vezes falso, a quem vem de fora.

O Chinês vai na direção contrária e tende a conter a expressão emocional, em parte porque mudar o tom de uma palavra muda o próprio significado dela. Quem carrega a emoção na fala altera o tom, e com o tom altera a palavra dita, de modo que a emoção precisa ficar de lado para que a frase se sustente.

Como ilustração, Si Fu trouxe “I Don’t Wanna Talk About It”, na gravação de Rod Stewart, ressalvando que a música não é dele. A letra brinca com a duração das sílabas: canta “bit” bem curto e alonga “longer”. Esse tipo de brincadeira sonora não existe em Chinês. Alongar ou encurtar uma sílaba muda o tom, e mudar o tom troca a palavra, quebrando o sentido da frase inteira.

Revisão, prontidão e o currículo curto
#

Si Fu anunciou que os encontros, até então quinzenais, passam a ter 45 minutos semanais, com temas propostos pelos próprios participantes, podendo repetir ou aprofundar temas anteriores. Ele lembrou que a série já usou os textos de Si Taai Gung Moy Yat como material de partida, e que outras fontes cabem, desde que o uso siga instrumental.

Daniel contou que veio com a expectativa de que a aula fosse sobre aprender Cantonês como língua, mas encontrou algo mais próximo do que já buscava, um encontro instrumental de análise do sistema e da cultura. Ele também comentou que tinha saído do Programa de Mestrado por sentir que não estava pronto, e que hoje sente o oposto: que é o momento de entrar. Si Fu respondeu que a ideia de estar pronto não combina com a experiência da vida, e explicou por quê. Prontidão é estado do que é inanimado. Uma cadeira serve para sentar, e existe um momento em que ela está pronta; depois desse momento, resta só decadência, até o dia em que deixa de existir. Para pessoas, esse estado não é estável: o que aparece é a sensação de que faltam pré-requisitos básicos, um vazio a ser preenchido.

Daniel Araújo comenta suas expectativas para o encontro

Si Fu propôs uma leitura etimológica para a palavra rever. O termo se aproxima de respeitar, no sentido de que só se volta a coisas importantes. Voltar a um tema, para Si Fu, é a melhor ferramenta de aprendizado, porque a segunda vez revela o que a primeira não mostrou, diferente da revisão escolar de só reler o mesmo texto. Si Fu ligou isso ao tamanho do currículo do sistema, de seis níveis. É bem mais curto que o de outras artes marciais, como o Karatê e seus vários graus de faixa, a ponto de muito praticante não saber dizer quantos níveis a própria arte tem. Si Fu tratou a brevidade como vantagem: currículo pequeno percorrido durante muito tempo é o que devolve o conceito de rever ao corpo. Entre o básico e o avançado só existe um nível, o intermediário, e é isso que alimenta a sensação legítima de não estar pronto.

Claudio agradeceu a Thiago Silva por ter recebido bem Gabriel Kloppenburg, filho de um grande amigo seu, e contou que ele está morando em Portugal, onde ficará um ano fazendo mestrado. Thiago Silva ofereceu o material de resumos já preparado das aulas anteriores.