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X Encontro de Chinês Instrumental

Anotações do décimo encontro de Chinês Instrumental, conduzido por Si Fu, com Claudio Teixeira e Thiago Silva. O registro começa com a gravação já em curso, no meio da decomposição de Si Fu como termo composto, e dali se desenrola toda a distância entre a gramática chinesa dos termos de tratamento e o uso que cada família Kung Fu faz deles.

Thiago Silva no décimo encontro de Chinês Instrumental

Si Fu não é a soma de dois ideogramas
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Si Fu abriu pelo próprio exemplo: 師父. Si Fu é um termo composto com sentido próprio; a leitura literal Si mais Fu não descreve o uso. O mesmo vale para pai, mãe, tio, irmão: a maior parte das relações familiares chinesas se escreve com dois ideogramas que compõem um sentido novo.

O termo corrente para mãe carrega dois ideogramas; Mo Mo fica mais perto de “mamãe”, no sentido mais literal.

No dicionário, Si aparece como mestre. Mas no uso ninguém diz “meu Si”; diz Si Fu, ou outro termo, dependendo da família. Os termos usados dentro da família Kung Fu têm mais relação com a cultura da própria família do que com a gramática ou a ortografia.

Si Hing não é título, na nossa família
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Dentro da família Moy Jo Lei Ou (o mesmo vale para a Moy Yat ou a Moy Yat Sang), Si Hing não é título. Coincide, aliás, com a gramática chinesa. Em várias outras famílias, porém, Si Hing é título: a posição do irmão mais velho que dá aula, não só o parentesco.

Cada família pode arbitrar o processo à sua maneira. Cabe às lideranças decidir como os termos são usados internamente, ainda que a decisão vá contra a gramática cantonesa. O erro é presumir que uma família que usa Si Hing como título “errou”. Si Fu deu o exemplo mais delicado: quem enfileira Si Hing mais nome, Si Hing Fulano, Si Hing Beltrano, sem olhar para quem está do outro lado, está falando por causa do título e não pela relação. Isso não vale na própria família, mesmo valendo em outras.

A fala orientada para a audiência
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Si Fu levou o ponto para fora do Kung Fu puxando um exemplo doméstico do próprio Claudio. Falando com a filha Alice sobre Luciana, a esposa da época, Claudio não usava o nome nem “mamãe”: dizia “a sua mãe”.

O possessivo entra justamente porque a fala é orientada para quem escuta, explicou Si Fu. Ele marca que ali mãe funciona como relação com quem ouve, e não como título que a pessoa carrega. Falando com a mãe da própria Luciana, o mesmo vínculo muda de forma e ela vira “a sua filha”. O mesmo princípio vale para os termos de tratamento dentro da família Kung Fu.

O erro do artigo definido: termos emprestados
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Algumas famílias usam o termo Si Hing para esse efeito de orientação à audiência. Falando com um aluno novato, dá para dizer “o Si Hing Guilherme”, “o Si Hing Thiago”, mirando quem está ouvindo. É emprestar a ideia de um título, de uma função, e Si Fu marcou que na língua chinesa isso é equívoco, ainda que no Kung Fu seja bem aceito.

O empréstimo deixa de se sustentar quando a audiência muda. Guilherme é Si Dai de Claudio e dá aula; falando com Si Fu, que não é To Dai de Guilherme, dizer “o Si Hing Guilherme” não funciona, porque ninguém ali está sendo educado pelo termo.

Outro empréstimo aparece na família de Si Suk Ursula, onde o marido de uma Si Fu casada recebe o termo Sin Saang, e ali com artigo definido, “o Sin Saang”. A rigor, Sin Saang é uma forma de deferência, próxima de “venerável”. Surgiu na aula a lembrança de um desenho de Kung Fu em que um gato resolvia tudo, chamado China, e Si Fu levantou a hipótese de o personagem carregar essa mesma carga de venerável, sem afirmar.

Usar o termo com artigo definido, como se houvesse um único Sin Saang, é o erro que se repete. Isso aconteceu também na família de Tiago Pereira, agora com Si Hing, usado como se só existisse um Si Hing possível. Como saída prática, Si Fu recomendou juntar o termo ao nome ao falar diretamente com a pessoa, Sin Saang Ricardo, por exemplo, em vez do artigo definido sozinho.

Si Nai e Dai Si Fu, termos da família de Leung Ting
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A família de Leung Ting tem um termo que Si Fu considera interessante, embora nem ele saiba explicar a fundo: Si Nai, a praticante mulher, distinta de Si Mo, a esposa do Si Fu. Si Fu leu isso há trinta anos, com a grafia N-A-I, e nunca chegou a descobrir o ideograma. Ele próprio pondera que o termo, ao dar peso à prática, corre o risco de empurrar a Si Mo para segundo plano.

Pesquisa posterior

O candidato mais provável ao ideograma é 師奶 (si1 naai1), verbete do CantoDict e do MDBG com o sentido de “mulher casada de meia-idade” ou “dona de casa”, o oposto do uso relatado na família de Leung Ting. Fica em aberto se a família ressignificou o termo ou se a grafia remete a outro ideograma homófono.

Outro termo da mesma família é Dai Si Fu. Usado com frequência, funciona como um grau intermediário: um ponto acima do mestre sênior, um ponto abaixo do grau mestre, segundo a explicação de Si Fu, que marcou a própria definição como aproximada. Em essência, todo Dai Si Fu tem um To Dai que virou Si Fu. Já o termo Si Gung não exige isso: um praticante pode ser Si Gung mesmo que nenhum To Dai seu tenha, por sua vez, formado outro Si Fu.

Si Fu pai, Si Fu mestre: um ideograma cada
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A pergunta de Cláudio Teixeira reabriu o caso mais delicado da aula: por que, em alguns filmes, alguém que não é To Dai chama um mestre qualquer de Si Fu? Si Fu respondeu decompondo o próprio termo: Si é mestre, e Fu tem duas leituras, mestre quando a referência não é familiar e pai quando é, com o mesmo som em mandarim e em cantonês, mas grafia diferente.

Claudio Teixeira pergunta por que, em alguns filmes, quem não é To Dai chama um mestre de Si Fu

A distinção já tem nota própria: o Fu de pai (父) desenha um homem de peito aberto empunhando duas armas para proteger a família; o Fu de mestre (傅) é outro ideograma. Si Fu recorreu à mesma imagem em aula: falando com o próprio To Dai, é o Fu pai; apresentando o mestre a terceiros pelo nome completo, “Si Fu Julio Camacho”, por exemplo, é o Fu mestre. A comparação que ele deu: “eu comi a manga” e “eu arregacei a manga” usam a mesma palavra para duas coisas diferentes, resolvidas pelo contexto.

Si Fu ergue os braços na posição que usou para ilustrar o Fu de pai, um homem de peito aberto com duas armas para proteger a família

Si Fu foi categórico: dentro da família ninguém chama o próprio Si Fu pelo nome. Isso preserva “Si Fu” como referência única, sem ambiguidade, e obriga quem tem outro Si Fu de fora da família a usar outro termo (Si Suk, Si Baak, o próprio nome) para se referir a ele. Fora da família, ao apresentar o próprio Si Fu para terceiros, soma-se o nome, “meu Si Fu, Si Fu Julio Camacho”, o primeiro no sentido de pai, o segundo, de mestre.

Si Fu deu duas versões da apresentação formal. Num ambiente estritamente formal, em que a condição de discípulo de quem fala não é relevante, a lista segue só a precedência: Si Fu Anderson, Si Fu Nataniel, Si Fu Julio, Si Fu Ricardo, Si Fu Ursula.

Num ambiente em que cabe se apresentar como To Dai, o Si Fu de quem fala vai para o fim, porque quem fala se insere na fila: Si Fu Nataniel Rosa, Si Fu Anderson Maia, Si Fu Rogério Baeta, Si Fu Ricardo Queiroz, Si Fu Ursula Lima e “meu Si Fu, Si Fu Julio Camacho”. Para Si Fu, adiantar o próprio Si Fu nessa lista é furar a fila, porque coloca quem fala acima dos demais sem que a ocasião peça isso.

Consultado por Si Fu sobre o ponto, Thiago Silva registrou já ter enviado ao grupo o ideograma e um texto próprio sobre o tema.

A genealogia viva e os termos que a tradição não previu
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Si Taai Gung Moy Yat era chamado por alguns discípulos de Gung Gung, bisavô, um degrau acima do avô na hierarquia Si Fu, Si Gung, Si Taai Gung. A rigor não existe termo formal para o degrau seguinte. Ao percorrer a escala em português, pai, avô, bisavô, trisavô, tetravô, Si Fu brincou que discípulo dele não fala “tataravô”.

Tradicionalmente, era incomum conhecer o Si Fu do próprio Si Fu. Alguém só virava Si Fu quando o Si Fu dele morria; era comum conhecer o próprio Si Gung já na cova, prestando respeito a um antepassado, não a alguém vivo. Por isso a cultura chinesa nunca precisou ordenar terminologicamente várias gerações vivas simultâneas: elas quase nunca coexistiam.

Hoje coexistem, e a genealogia viva obrigou a cunhar termos como Si Gung e Si Taai Gung para gerações que a tradição nunca precisou nomear enquanto vivas. Si Fu ilustrou com o exemplo de Keith, aluno de Thiago Pereira que se tornaria Si Fu: para o To Dai de Keith, a cadeia seria Keith Si Fu, Thiago Pereira Si Gung, Julio Camacho Si Taai Gung. Si Fu comentou que, para um chinês antigo, essa multiplicação não faria sentido, mas é o que a vida real de várias famílias de Kung Fu entrega hoje; ele mesmo admitiu não saber como esse acúmulo geracional vai se resolver ao longo do tempo.

Si Jo, os antepassados e o mural de retratos
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A rigor, todos os antecessores são Si Jo. O termo soa estranho a um ouvido chinês quando aplicado a alguém vivo, porque carrega a mesma implicação de “antepassados” em português: pressupõe morte. Por isso, na convenção que Si Fu descreveu, Si Jo fica reservado para quem já se foi; enquanto o Si Gung está vivo, chama-se Si Gung, mesmo sendo tecnicamente também um antepassado.

Si Fu estendeu isso ao protocolo do mural de retratos da família: o quadro de uma pessoa viva não entra na mesma linha dos quadros de quem já morreu, ainda que possa entrar abaixo. Um problema concreto complica esse arranjo, disse ele: o próprio To Dai pode morrer antes do Si Fu. A solução é virar a parede, abrindo uma linha nova, em vez de misturar vivos e mortos lado a lado; misturar seria um desrespeito ao To Dai que morreu antes do próprio Si Fu. Na montagem que Si Fu descreveu, os quadros ancestrais vêm primeiro, e depois entram Ip Man, Moy Yat, Leo Imamura e ele próprio.

Si Fu ergue a mão ao descrever a virada da parede no mural de retratos da família

Esse arranjo antes contava com uma distância etária que hoje aparece menos. Como via de regra o Si Fu era bem mais velho que o To Dai, e a pessoa começava a praticar cedo, a ordem das mortes tendia a seguir a ordem das gerações. Isso deixou de valer.

Gung Gung, o avô adotivo
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Gung Gung reaparece com um segundo sentido, mais técnico: avô adotivo, quando a linha de sucessão se rompe. Si Fu recorreu ao exemplo de Celso Grande, já falecido, cujo discípulo Herbert virou Si Fu. Se Herbert também morresse, e o discípulo dele fosse treinar com o Si Gung da linha (o próprio Celso Grande, na cadeia), esse discípulo poderia chamá-lo de Gung Gung: mesmo ideograma do primeiro uso, aplicado quando a sucessão pula uma geração por falta de quem a ocupasse.

Si Fu citou ainda um caso em que essa adoção só se deu parcialmente, porque o Si Fu da pessoa seguia vivo. O termo se aplica quando há a lacuna deixada pela morte na linha de sucessão.

Esses termos vêm do uso corrente da família, não de dicionário. Si Fu contou ter ouvido de Si Gung que Si Taai Gung Moy Yat preferia ser chamado de Gung Gung a Si Taai Gung.

A titulação de 2003 e o Si Baak entre pares
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Segundo o relato de Si Fu, em 2003 cinco pessoas se titularam Si Fu no mesmo processo: Renato, Anderson, Rogério, Nataniel e o próprio Si Fu, o mais novo dos cinco. A ordem de conclusão não seguiu a ordem de formalização: Nataniel e Renato garantiram a titulação primeiro, mas em termos de finalização do processo Si Fu foi o terceiro. Rogério e Anderson fizeram a parte final do próprio estágio com Si Fu, que viajava com frequência a São Paulo para isso; Nataniel, que trabalhava fora na época, participou menos dessa etapa.

Anderson e Rogério eram mais antigos que Nataniel e que ele, e já tinham muitos alunos prestes a migrar para dentro da família mais ampla. Foram os dois que decidiram que esses alunos chamariam Nataniel e Si Fu de Si Baak.

Si Fu tratou a decisão como arranjo daquela situação particular. Como regra, cada um escolhe o tratamento: quem achar que deve chamar de Si Baak, chama; quem preferir outro termo ou o nome, fica igualmente à vontade. A Ricardo ele já recomendou trocar o Si Hing pelo nome, “Julio”. Sobre esse campo, disse se considerar cada vez mais liberal, sem sentido em ficar performático.

A relação familiar acima do título
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Dentro da família, a regra é evitar “Mestre Fulano”, mesmo quando o título é real. Chamar alguém de mestre num ambiente familiar interno, sem necessidade de reforçar o título, coloca a titulação acima da relação. É como chamar o próprio irmão de “Doutor” numa reunião de família só porque ele é advogado.

Fora da família, ao apresentar Thiago para quem não pertence a ela, “o mestre Thiago” cumpre a função. Dentro, entre os que compartilham o mesmo Si Fu, o lugar é “Si Hing Thiago”, ou apenas “Thiago”.

Si Fu deixou combinado que o encontro seguinte entraria na decupagem dos ideogramas, separando Si Fu, Si Mo, Si Hing e Si Dai um a um.