O que pode ser dito, pode ser dito com clareza
No prefácio do Tractatus, escrito em 1918, Wittgenstein resume todo o livro em uma frase. No alemão: “Was sich überhaupt sagen lässt, lässt sich klar sagen; und wovon man nicht reden kann, darüber muss man schweigen.” Em português: “O que se deixa dizer em geral, deixa-se dizer claramente; e sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.”
A frase tem duas metades. A primeira é tese sobre a forma do dizer com sentido: clareza opera como critério de existência da proposição com sentido, não como virtude estilística. Ou a proposição figura um fato com forma lógica determinada e, com isso, é clara, ou ela não é proposição. Não há meia-figuração, gesto vago, intuição que tangencia.
A segunda metade prepara a proposição 7. A pseudo-proposição filosófica — que pretende dizer algo sobre a essência do mundo, a natureza do sujeito, o sentido da vida — entra no perímetro do indizível. Não é falsa: é ininteligível. A obra inteira aplicará o critério, primeiro construindo a teoria da proposição com sentido, depois mostrando que o que sobra fora dela só pode ser silenciado ou mostrado.
