Não é como o mundo é que é o místico, mas que ele é
A proposição 6.44 desloca o lugar do místico. No alemão: “Nicht wie die Welt ist, ist das Mystische, sondern dass sie ist.” Em tradução, não é como o mundo é, mas que ele é, que constitui o místico.
O como é o domínio das proposições com sentido. Cada estado de coisas, cada relação descrita por uma proposição empírica, cabe na grade lógica do Tractatus. O que ele é (o fato bruto de haver mundo em vez de nada) não cabe. Não é um dos fatos do mundo; é a condição para haver fatos. Por isso não pode ser figurado por proposição alguma.
A passagem aproxima Wittgenstein de Heidegger e da pergunta leibniziana (“por que há algo em vez de nada?”), mas a aproximação é técnica, não temática. Para Wittgenstein, a pergunta pelo que ele é não pode ser feita com sentido; só mostrada no assombro. A 6.44 nomeia esse assombro como o místico, e a 6.522 dirá que ele se mostra mas não se diz.
