No fim das razões, vem a persuasão
O §612 está perto do fim de Da Certeza e responde a uma pergunta que atravessa o livro: o que acontece quando duas pessoas com imagens de mundo (Weltbilder) incompatíveis se encontram? No alemão: “Am Ende der Gründe steht die Überredung.” Em português: “Ao fim das razões está a persuasão.”
A passagem é dura por trás do tom plano. Wittgenstein descreve, no contexto, o encontro entre um cientista e alguém que crê em oráculos. O cientista pode listar razões pelas quais o oráculo é confiável, mas a discordância última não está em proposições isoladas. Está no fundo prático que faz certas razões contarem como razões. Quando duas imagens de mundo se chocam, não há instância neutra que decida — chega-se ao ponto em que o argumento se transforma em apelo, exibição, conversão.
Überredung — persuasão — não é elogio à retórica vazia. É reconhecimento de que a justificação tem fim, e que esse fim não é alcançado por mais um passo argumentativo. Pode ser alcançado por mostrar, por treinar de novo, por simplesmente continuar agindo de certo modo. A frase tem implicações políticas e teológicas que comentadores como Peter Winch (em Understanding a Primitive Society, 1964) e Stanley Cavell exploraram.
A leitura conservadora vê aqui relativismo culturalista. Leitura mais cuidadosa nota que Wittgenstein não nivela imagens de mundo: ele descreve o que ocorre na situação-limite, sem renunciar a falar de erros, ilusões e correções dentro de uma imagem.
