Quem tentasse duvidar de tudo nem chegaria a duvidar de coisa alguma
O §115 de Über Gewißheit — Da Certeza — registra uma das anotações finais de Wittgenstein, escrita em 1950-51, sobre o problema da dúvida cética e os argumentos de G. E. Moore contra ele. No alemão: “Wer an allem zweifeln wollte, der würde auch nicht bis zum Zweifel kommen. Das Spiel des Zweifelns selbst setzt schon die Gewißheit voraus.” Em português: “Quem quisesse duvidar de tudo nem chegaria a duvidar. O próprio jogo do duvidar já pressupõe a certeza.”
A passagem responde a Descartes pela inversão do gesto. A dúvida metódica das Meditações só funciona porque pressupõe inúmeras certezas tácitas: que a língua portuguesa significa o que significa, que o lápis na mão é um lápis, que o passado existiu. Tirar todas as certezas não amplifica a dúvida; a dissolve, porque o mecanismo da dúvida precisa de pontos firmes para articular a oposição entre o duvidoso e o seguro.
A formulação articula uma das teses centrais de Da Certeza: as proposições que mantemos firmes (Moore-type: “esta é uma mão”, “a Terra existia antes do meu nascimento”) não são proposições conhecidas no sentido ordinário. Não são justificáveis, porque são o que estrutura a justificação. Wittgenstein chama esse fundo de Hingenommenes (o que é aceito) e de Weltbild (imagem do mundo). A dúvida lógica precisa desse fundo intacto para começar a operar.
