Não pense, mas olhe!
O §66 das Investigações surge no meio da introdução do conceito de semelhança de família (Familienähnlichkeit). Wittgenstein convida o leitor a considerar o que chamamos “jogos”: jogos de tabuleiro, jogos de cartas, jogos de bola, jogos olímpicos. E lança o imperativo: “denk nicht, sondern schau!” — não pense, mas olhe.
O alvo é a tentação platônica de procurar a essência comum. Se temos uma palavra única (“jogo”), tem que haver uma propriedade comum a tudo o que ela cobre, assim corre o reflexo. Wittgenstein bloqueia o reflexo pelo gesto descritivo: olhe os casos antes de postular o invariante. Você verá uma rede de semelhanças sobrepostas, parentescos parciais, sem propriedade compartilhada por todos.
A imagem que segue, no §67, é a da família: traços que se cruzam (porte, cor dos olhos, andar) sem que um único traço esteja em todos os membros. O conceito de semelhança de família virou ferramenta filosófica de uso amplo: em estética (após Morris Weitz, 1956, sobre o conceito de arte), em filosofia da ciência, na crítica a definições por gênero próximo e diferença específica.
