Quando obedeço a uma regra, não escolho. Sigo a regra cegamente
O §219 das Investigações dá uma das frases mais discutidas do livro tardio. No alemão: “Wenn ich der Regel folge, wähle ich nicht. Ich folge der Regel blind.” Em português: “Quando sigo a regra, não escolho. Sigo a regra cegamente.”
O adjetivo blind — cego — provoca. Cego não é elogio à ignorância; é descrição da fenomenologia do uso competente. Quando alguém treinado em aritmética continua a série “+2” passando de 1000 a 1002, não consulta uma tábua interna de interpretações nem pondera alternativas. Aplica. A “cegueira” é a ausência do passo deliberativo que o filósofo, em busca de fundamento, gostaria de inserir.
A passagem responde ao paradoxo do §201. Se cada interpretação pede outra, e a regressão é infinita, então em algum momento a aplicação tem de operar sem interpretação. É exatamente esse ponto que o §219 nomeia. O treinamento em uma prática é o que permite agir conforme a regra sem ter de ler instruções. O fundamento da semântica não é mais um salto interpretativo nem uma intuição rápida; é hábito incorporado, Praxis compartilhada.
A leitura kripkiana toma o “cegamente” como confissão de ceticismo (não há fato sobre o que a regra exige, só comportamento de comunidade). Comentadores como Baker, Hacker e McDowell rejeitam essa leitura: a cegueira é da deliberação, não dos critérios.
