Nenhum curso de ação pode ser determinado por uma regra
O §201 formula o que ficou conhecido como paradoxo do seguir uma regra. No alemão: “Unser Paradox war dies: eine Regel könnte keine Handlungsweise bestimmen, da jede Handlungsweise mit der Regel in Übereinstimmung zu bringen sei.” Em tradução: “Nosso paradoxo era este: nenhum modo de agir poderia ser determinado por uma regra, pois todo modo de agir poderia ser posto em conformidade com a regra.”
O argumento corre desde o §138. Se entender o significado de uma regra é interpretá-la, e toda interpretação pede outra interpretação que a fundamente, então não há ponto fixo: qualquer extensão da série “+2” pode ser justificada por alguma interpretação. A regra, sozinha, não amarra a próxima aplicação.
Wittgenstein resolve o paradoxo, no mesmo §201, dissolvendo o pressuposto: existe um modo de captar a regra que não é uma interpretação, e que se mostra no que chamamos “obedecer à regra” e “violá-la” no curso da vida prática. A solução desloca o fundamento da semântica para a prática (Praxis) e a forma de vida. Saul Kripke, em Wittgenstein on Rules and Private Language (1982), leu o paradoxo como ceticismo radical sobre o significado, leitura que abriu décadas de debate sobre se a interpretação kripkiana é fiel ao texto ou um Wittgenstein próprio (Kripkenstein).
