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❝ Citação

O modo como você usa a palavra Deus mostra não a quem se refere, mas o que quer dizer

A entrada é de 1946, perto do fim da vida. Em tradução: “O modo como você usa a palavra ‘Deus’ não mostra de quem você fala, e sim o que você quer dizer.”

A frase aplica a tese do significado pelo uso à linguagem religiosa. A pergunta tradicional sobre Deus pede um referente: a quem aponta o termo? Wittgenstein desloca: o emprego do termo, as práticas em que ele aparece (oração, ação ritual, exclamação, lamento), revela o que está em jogo. Pessoas que pronunciam a mesma palavra podem ocupar gramáticas inteiramente diferentes — não no sentido de teologias divergentes, mas no sentido de que a palavra opera de modos não comparáveis em suas vidas.

A passagem foi central para a chamada teologia wittgensteiniana — D. Z. Phillips, Norman Malcolm, Peter Winch — que recusa a leitura cognitivista padrão da linguagem religiosa (em que afirmações religiosas seriam hipóteses metafísicas a verificar) e propõe lê-la como gramática autônoma de um modo de vida. A leitura é polêmica: Anthony Kenny e outros a acusaram de fideísmo disfarçado, e Phillips passou a vida defendendo que a leitura preserva, não dissolve, a realidade da religião.

Wittgenstein nunca escreveu uma filosofia da religião sistemática. Mas as anotações de Cultura e Valor registram, ao longo de décadas, um pensamento religioso que se recusa tanto à apologética racionalista quanto ao ateísmo cientificista. A entrada de 1946 é uma das mais explícitas do percurso.