O homem tem que despertar para o assombro — e talvez também os povos. A ciência é um meio de adormecê-lo de novo
A anotação aparece nas entradas iniciais de Vermischte Bemerkungen. Em tradução: “O homem tem que despertar para o assombro — e talvez também os povos. A ciência é um meio de adormecê-lo de novo.”
A frase é dura contra a ciência, e pede leitura cuidadosa. Wittgenstein não nega o valor cognitivo do empreendimento científico. Critica a função cultural que a ciência, em sua versão divulgada, passou a exercer no século XX: fornecedora de explicações que dispensam o espanto. Quando o relâmpago é “explicado” pela física atmosférica, e isso supostamente encerra a questão, o que se perdeu não é compreensão; é a abertura para a estranheza do haver.
A passagem ressoa com 6.44 do Tractatus: não é como o mundo é, mas que ele é, que constitui o místico. O assombro (Wundern) não pede explicação dentro do mundo; é resposta ao fato de haver mundo. A explicação científica opera no plano das relações entre fatos. Não dissolve o assombro, mas pode obscurecê-lo se usurpar o seu lugar (daí “adormecer”).
A entrada conversa com a crítica de Heidegger à Vorstellung científica como esquecimento do ser, embora Wittgenstein não tivesse engajamento direto com Heidegger. A leitura técnica em Cora Diamond e em The Realistic Spirit (1991) recolhe essa dimensão sem reduzir Wittgenstein a romântico anticientífico, distinção que a frase isolada pode sugerir.
