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Mestre Vladimir Anchieta: Saber se adaptar ao outro

No terceiro encontro do Programa de Mestrado, Mestre Vladimir Anchieta, Moy Wu Lai 梅護禮, fala de Kung Fu como um relacionamento com o mundo. Com o ambiente, com as pessoas, com a circunstância. Saber se adaptar.

Cita o apóstolo Paulo, que aprendeu a viver com o muito e com o pouco, a se relacionar com os pobres e com os ricos. Conta a própria trajetória. Viveu tranquilo no Nordeste, no interior, “no meio do mato, onde ninguém me afetava”. Veio para cá. O que era tranquilo virou hostil. Teve que aprender a se adaptar.

Viver de forma adequada
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Adaptar-se, para ele, não é ceder. Não é conformismo. É reconhecer o terreno e jogar dentro dele sem abandonar quem se é.

Foi convidado para falar num seminário da igreja e perguntaram se faria o trabalho sobre anjos ou sobre demônios. Perguntou ao filho Daniel, que era pequeno na época. Daniel respondeu: “pai, o senhor vai falar sobre anjos?” Vlad conta que era essa a resposta que queria. Depois fez o trabalho sobre demônios. Porque precisava aprender sobre demônios. A adaptação ao terreno, para ele, passa por entrar no difícil e não fugir dele.

Tem o outro lado também: O lado que protege. Numa situação, Daniel levou um tapa na cara com o Vlad ao lado. Gente da igreja perguntou: “você não reagiu?” A resposta do Vlad:

“tá bom, eu vou reagir e ele morre com o tiro na cabeça. Mas eu reagi. Onde é que está a legalidade e a bondade nisso?”

Adaptar-se, nesse caso, é não reagir. É ler o lugar (quem está armado, quem está em desvantagem, quem morre se der errado) e escolher preservar a vida de quem está ao redor. Kung Fu é sobrevivência. A sua e a de quem está do seu lado.

Saber se adaptar ao outro
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A adaptação não é só ao ambiente. É ao outro. A esposa, a neta, o filho, o colega de trabalho, o estranho na escola onde ele vai buscar a neta.

Durante a fala dele no encontro, a neta faz barulho do outro lado da casa. Vlad aproveita o próprio momento: “ela não tem noção de que não precisa fazer barulho.” O avô se adapta. Não silencia a neta. Segue falando.

O Kung Fu do Vlad é praticado com a esposa, com o Daniel (que é “muito explosivo” e precisa ser ensinado a não reagir fisicamente), com a neta. O que parece tema doméstico é o treino real.

O Comentário do Si Fu
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Vlad é cristão devoto. Si Fu respeita isso. Mas usa a fala dele para levantar uma questão que vale para qualquer Si Fu, e mais ainda para um religioso.

Si Fu pede pra gente imaginar o cenário em que seus discipulos não tenham sua religião: Pela lógica o melhor que pode ser feito é que ele tenha a religião do próprio Si Fu. Evangelizar seria missão do cuidado. O problema é que é simétrico. O discípulo, pela mesma lógica, precisa converter o Si Fu. Cada um, por amor ao outro, tenta puxar o outra crença. No pior caso, vira guerra santa.

A forma mais honesta de ajudar o discípulo é dar ferramentas para ele pensar, não dar respostas prontas. Ajudar a ser forte na própria crença dele, não na sua. O Si Fu não precisa esconder a crença. Não precisa evitar falar dela. Mas não pode impô-la, porque estaria usando uma posição que serve para uma coisa para fazer outra.

Não há problema em ser evangélico. O problema é limitar a forma como o discípulo pode viver a própria vida melhor, só por conta das crenças do Si Fu.

Glosa
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A primeira fala do Si Hing me lembrou uma pesquisa recente: Esse versículo do apóstolo termina com a frase: “tudo pode naquele que me fortalece”. Vejo a frase sendo mal interpretada no sentido de que a pessoa poderia fazer qualquer coisa, afinal, “tudo pode”. Quando na verdade é uma mensagem quase estóica ou mesmo hedonista: precisamos aprender a viver com o que temos.