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Da ontologia à gramática: a virada da filosofia da linguagem comum

Em ryle-o-que-e-uma-categoria apareceu a tese de que Ryle “dissolve a ontologia em gramática”. A operação aparece também em Wittgenstein e Austin. Faz parte da filosofia da linguagem comum (ordinary language philosophy), com Oxford como berço no meio do séc. XX.

A virada gramatical em Wittgenstein
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A formulação mais nítida está nas Investigações Filosóficas (1953). Duas passagens centrais:

  • §371: “Essence is expressed by grammar.”
  • §373: “Grammar tells us what kind of object anything is.”

Para Wittgenstein, perguntar pela essência de algo (o tempo, a dor, o número) é descrever as regras de uso da palavra em questão. Não há estrutura do real para apreender separadamente da gramática. Essência é a sombra projetada pela gramática, na formulação de comentadores. A pergunta ontológica é refeita como pergunta gramatical.

Ryle no mesmo movimento
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Ryle nunca cita Wittgenstein, mas é amplamente reconhecido como influenciado por ele. Os “erros de categoria” e a logical geography operam na mesma lógica: o filósofo mapeia o uso, não deduz o real. O dualismo cartesiano cai porque viola gramática conceitual, não porque foi refutado por evidência.

Austin
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Austin opera no mesmo registro com estratégia própria: análise minuciosa do uso ordinário. Em Sense and Sensibilia (1962, póstumo), ele desfaz a teoria dos sense-data mostrando que “real” não é um conceito unitário. Varia conforme o contraste relevante: real em oposição a falso? a aparente? a fictício? a artificial? Não há substância “realidade”. Há usos variados de “real” para distinções práticas. Mesma operação de Ryle, em outro registro.

O ponto comum
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O movimento partilha uma tese central:

Perguntas ontológicas tradicionais são perguntas sobre como falamos significativamente.

Aristóteles pergunta “o que é o ser?” e responde mapeando categorias do real. A filosofia da linguagem comum suspeita: você está mapeando o real, ou o uso da palavra “ser”? A resposta inclinada é a segunda. E é tudo o que há para mapear.

A virada não nega que o mundo exista. Nega que a filosofia tenha acesso privilegiado a ele por outra via que não a análise da nossa fala sobre ele.

Posição crítica
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A dissolução não é unânime. Dois críticos:

  • Quine mantém a pergunta ontológica viva (“On What There Is”, 1948), mas a formula em termos de comprometimento ontológico das teorias científicas. Diferente da OLP. Mais próxima da metafísica naturalizada.
  • Heidegger inverte o sinal. Para ele, o problema do ser é radicalmente prévio à linguagem ordinária. A filosofia da linguagem comum perde o próprio terreno.

A leitura 2 da pesquisa (fenomenológica) vai voltar a esse ponto.

Notas de verificação
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  • ✓ PI §371 e §373: citações literais reportadas pela SEP “Wittgenstein” e por outras fontes acadêmicas.
  • ✓ Filiação Ryle-Wittgenstein como influência: Wikipedia “Ordinary language philosophy” e SEP confirmam, com a observação de que Ryle não cita.
  • ✓ Austin como vértice da OLP, com Sense and Sensibilia: Wikipedia “Ordinary language philosophy” e fontes secundárias.
  • ⚠ A síntese “perguntas ontológicas são perguntas sobre uso significativo” é minha formulação, baseada na leitura corrente do movimento. Não é citação literal de nenhum dos três autores.
  • ⚠ A frase “essência é a sombra projetada pela gramática” é paráfrase de comentadores secundários (não citação literal de Wittgenstein, embora capture a ideia de PI §371-373).
  • ⚠ A oposição com Quine e Heidegger é apontamento meu — leitura corrente, não tese exposta dos dois.

Fontes secundárias: