A constituição é como as virgens. Foi feita para ser violada
A frase circula em sites de citação brasileiros e em coletâneas populares atribuída a Getúlio Vargas, geralmente associada à Constituição de 1937, a chamada Polaca. A pesquisa em fontes primárias do CPDOC FGV, do Arquivo Nacional e da Biblioteca da Presidência da República não retorna a frase em discursos, cartas, diários ou correspondência publicada de Vargas. A coletânea de citações de Paulo e André Buchsbaum, “Do bestial ao genial” (2006), aparece como uma das fontes secundárias citadas, mas a obra é antologia popular sem aparato crítico, e não cita fonte primária para a atribuição.
A frase tem genealogia anterior. Variantes da formulação aparecem em piadas políticas francesas do século XIX e em comentários sobre constituições latino-americanas no entreguerras, sem autoria fixa. A imagem da constituição como virgem violada é tópica conhecida da retórica antiparlamentarista, e a sua circulação sob nomes diversos sugere autoria coletiva, não atribuível a um locutor único. A versão brasileira fixou-se em Vargas provavelmente por afinidade temática com a outorga da Polaca de 1937, embora não haja registro documental que sustente a autoria.
A nota fica como advertência de pesquisa: a frase é frequentemente repetida como autêntica, inclusive em manuais didáticos, mas até o momento não foi possível localizar fonte primária, ato datado, testemunho confiável de contemporâneo, ou registro arquivístico. A inclusão na coleção como item de citação direta de Vargas exigiria evidência documental que nenhuma das fontes consultadas fornece. Source-or-silence: registra-se a circulação da frase, suspende-se a atribuição.
