Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo
A frase aparece no fecho da carta, antecedendo o “Eu vos dei a minha vida”. O paralelismo é a figura retórica central: duas orações com mesmo sujeito implícito, mesmo verbo no pretérito perfeito, mesmo objeto repetido com variação (“Brasil” e “povo”). A repetição não é redundância; é equivalência construída. Brasil e povo passam a ser, no léxico da carta, designações da mesma vítima, e o agente espoliador fica subentendido como inimigo único.
O termo “espoliação” tem peso jurídico-econômico específico. No léxico de Vargas dos anos 1950, refere-se a remessa abusiva de lucros de empresas estrangeiras, desfavorecimento cambial do café, pressão internacional contra a Petrobrás e contra a lei de lucros extraordinários, todos itens nomeados em parágrafos anteriores da própria carta. A escolha do verbo “lutar” enquadra a presidência como combate, não como administração, e produz a figura do presidente-soldado em retirada.
A leitura nacionalista da carta tirou desse trecho a fórmula de identificação entre projeto trabalhista e soberania econômica. A expressão foi reciclada por Goulart, pelo PTB, pelos sindicatos petroleiros nas décadas seguintes, e voltou ao discurso público em momentos de debate sobre privatizações da Petrobrás e da Vale. O tópico da espoliação organizou parte da imaginação política brasileira da segunda metade do século XX, com Vargas como matriz da fórmula.
