Escolho este meio de estar sempre convosco
A passagem completa diz: “Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação.” A frase dá nome ao próprio gesto suicida e o redefine. O suicídio passa a ser um meio, instrumento, e não um fim em si.
A construção é teológica. Vargas escreve sobre estar “sempre convosco” usando o léxico que o catolicismo popular brasileiro reserva à presença de Cristo na Eucaristia e ao consolo dos santos. A repetição do “quando vos” introduz três cenas projetadas no futuro do leitor: humilhação, fome, vilipêndio. Em cada uma, o morto está presente como afeto que age sobre o vivo. A morte é convertida em forma de companhia ininterrupta.
A escolha do verbo “escolho” no presente é importante. Os outros verbos do parágrafo final da carta usam pretérito (“dei”) ou se projetam para a passagem (“ofereço”, “saio”). Aqui o tempo verbal volta a ser o do agente que ainda decide. A frase situa o suicídio na fronteira: ato lúcido de quem opta por uma forma de presença e não por uma forma de ausência. A historiografia política trata essa passagem como o núcleo retórico que viabiliza o culto póstumo a Vargas e a permanência do varguismo como força ativa nas duas décadas seguintes.
