Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna
O parágrafo completo diz: “Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate.” A construção opera por inversão: o léxico da escravidão, que historicamente nomeia a opressão sofrida pelas camadas populares, é apropriado pelo presidente para descrever sua posição diante do povo.
O movimento retórico tem três etapas. Primeiro, Vargas se nomeia escravo, recolocando-se como subordinado àqueles a quem governou. Segundo, projeta a libertação do povo como consequência do seu próprio gesto de morte, inscrevendo-se na linhagem do líder-redentor. Terceiro, fixa o sangue como moeda de resgate, vocabulário que cita diretamente a cristologia da paixão. A passagem é um dos pontos mais explicitamente teológicos da carta.
A figura do presidente-escravo do povo é dispositivo do trabalhismo getulista construído ao longo de toda a Era Vargas, com expressões equivalentes em discursos de Primeiro de Maio dos anos 1940 e em alocuções no segundo governo. A novidade da carta é deslocar a metáfora do presente da ação política para o limiar da morte. A formulação foi recolhida pelo PTB e pelos sindicatos como senha de pertencimento, e organizou parte significativa da liturgia varguista póstuma, especialmente nos atos de homenagem em São Borja e nas comemorações de 24 de agosto promovidas pelos sindicatos petroleiros.
