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V Encontro de Chinês Instrumental

Anotações do quinto encontro de Chinês Instrumental, conduzido por Si Fu, com Claudio Teixeira. Si Fu propôs decupar trechos bilíngues do Hai Tong de Si Taai Gung Moy Yat como balizador, aproveitando termos já estudados em encontros anteriores e ancorando o estudo dentro do próprio sistema.

O trecho escolhido foi o que abre a seção do Biu Ji 標指. A escavação pousou em kuen to 拳套, na natureza do Biu Ji como retorno, na inversão de ordem entre kuen to e to kuen, no termo dispositivo (jiu sik 招式) cunhado por Si Gung e na expressão cheung ak 掌握 que aparece adiante no mesmo trecho.

A virada de método
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Si Fu localizou na própria caixa de e-mail um texto bilíngue de Si Taai Gung que vinha sendo procurado e propôs trabalhá-lo como nova base do estudo. A ideia é manter o que já vinha sendo feito (a relação Mandarim-Cantonês, o aspecto cultural), mas jogar o eixo mais para dentro do Kung Fu. Em vez de tomar um tema e descer nele de cima a baixo, pegar trechos curtos do Hai Tong e ir decupando, com a vantagem de o texto ser bilíngue e cruzar termos já vistos com termos novos. No trecho escolhido, si fu 師父, to dai 徒弟, Siu Nim Tau 小念頭 e Cham Kiu 尋橋 já tinham sido estudados; kuen to 拳套, não.

A leitura do trecho
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Claudio leu o trecho em voz alta. Si Fu pediu que ele lesse mais neutro, sem entonação, justamente para não perder o sentido das frases na ênfase. Em leitura mais corrida o texto diz, em paráfrase, que quando o Si Fu transmite ao discípulo o Biu Ji 標指, terceiro e também último kuen to 拳套, isso significa que ele consentiu tacitamente que o nível do discípulo no Ving Tsun 詠春 atingiu a categoria de Si Fu 師父.

Ainda assim, a fundação do Kung Fu reside nos êxitos do Siu Nim Tau e do Cham Kiu, de modo que um Biu Ji muito bem feito não indica, por si só, que os dois anteriores também excelem; e, inversamente, se Siu Nim Tau e Cham Kiu já carregarem experiência do Biu Ji, o próprio Biu Ji ganha o peso adequado. Si Fu destacou aqui a questão que no início do texto ele fala do Si Fu líder de família e nesse trecho do Si Fu como mestre (Os dois Si Fu).

Kuen to 拳套
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Kuen 拳 é punho. A parte de baixo do ideograma é 手 sau, mão, fechada sobre o braço. Em Mandarim, 拳 lê-se quán, mesmo chuan do Tai Chi Chuan 太極拳; e 手 lê-se shǒu.

Tou 套 é embalagem, invólucro, capa. A imagem que Si Fu propôs foi a da capa de um livro: a capa não é o livro, é o que embala o livro, dá nome e contorno àquilo que ela cobre. Kuen to 拳套 seria o agrupamento de gestos de punho dentro de um conjunto que tem unidade.

Não é sistema no sentido fechado, montado, em que nada pode entrar nem sair. É conjunto de técnicas, com permeabilidade, mas com identidade própria. Quando se diz só kuen 拳, sem o to, refere-se ao punho enquanto técnica, à arte marcial em si; quando se acopla o to, o que se está dizendo é que aquele kuen foi colocado dentro de uma embalagem.

Biu Ji como último Kuen Faat (拳法) to do sistema de mão livre
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O trecho do Hai Tong chama o Biu Ji de “terceiro e último kuen to”. A precisão importa. Kuen to aí remete ao sistema de mão livre, e mão livre é tradução pouco feliz. O sistema chinês distingue kuen faat 拳法 (método de punho), gwan faat 棍法 (método de bastão) e do faat 刀法 (método de faca).

Os três kuen to (Siu Nim Tau, Cham Kiu, Biu Ji) integram o kuen faat, e Biu Ji é o último deles dentro desse subsistema abrindo justamente para o que vem depois.

A passagem reforça que a fundação do Kung Fu se dá nos êxitos dos dois primeiros kuen to, e que para fazer um bom Biu Ji é preciso iniciar pela base.

A dinâmica do mou gun 武館 confirma: faz-se Siu Nim Tau, Cham Kiu e Biu Ji em sequência contínua, sem parar entre um e outro, sem alongar, sem beber água. Os dois primeiros qualificam para o terceiro, no sentido de prática diária: começar a manhã com um Siu Nim Tau/Cham Kiu morno é tirar a vitamina que prepara o Biu Ji da hora seguinte.

Natureza do Biu Ji: retorno e abertura
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Si Fu pediu uma palavra para a natureza do Biu Ji, e o que apareceu foi reestabelecimento, restauração, retorno. Retorno à linha central, retorno ao equilíbrio, retorno a algo que se perdeu. Em chave metafórica, Siu Nim Tau e Cham Kiu levam para frente; Biu Ji faz voltar. Esse retorno não é regressão. É o que torna possível dar um passo para cima, para os níveis seguintes do sistema. Si Gung trabalha o Biu Ji como espécie de aberturas, passagens para os outros níveis. As técnicas do Biu Ji, vistas de perto, são desdobramentos, alterações e transformações de gestos que já estavam no Siu Nim Tau.

Desdobramentos: do cotovelo do Siu Nim Tau à faca
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No Cham Kiu concentra a energia no cotovelo e dispara para frente; o nome já diz piu 標, lançar. No Biu Ji, a energia se concentra no cotovelo, sobe e produz outra coisa.

No Baat Jaam Do, a configuração já está pronta na forma anterior; basta adaptar. Quem não interiorizou o conceito na base, no entanto, vai ter que tirar o atraso de seis, sete, dez anos quando chegar à faca. Não é o caso de lamentar; é como o sistema funciona.

Apareceu na conversa um gesto específico: a inclinação das mãos no fim da primeira parte do Biu Ji.

Para quem está dentro do Biu Ji, o movimento diz pouco; para quem está na faca, faz sentido completo. Si Fu destacou que também está no Luk Dim Bun Gwan, no Dang 登, configurando o mesmo arco de pressão que o Hai Tong descreve no bastão. O gesto parece solto mas conecta três níveis do sistema.

Sobre a base, Claudio relatou um trabalho de resgate em torno do Yi Ji Kim Yeung Ma 二字鉗羊馬, especificamente da conexão entre os joelhos: foi essa conexão destravada que permitiu à energia chegar a lugares onde antes não chegava.

Kuen to 拳套, to kuen 套拳, to lou 套路: a ordem do qualificador
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Os mesmos dois caracteres, em ordem invertida, dizem coisas diferentes. Quando se escreve kuen to 拳套, kuen qualifica to: o punho qualifica a embalagem, e o que se tem é a embalagem do punho. Quando se inverte para to kuen 套拳, to qualifica kuen: a embalagem qualifica o punho, e o que se tem é o punho enquanto recurso, equipamento.

O MDBG traduz kuen to como luva de boxe (a coisa que reveste o punho); para to kuen, nem arrisca tradução composta, separa os dois caracteres.

A inversão importa porque o Hai Tong faz uso dos dois. Quando o texto diz que, com o auxílio do primeiro e do segundo to kuen 套拳, se domina o kuen lei 拳理, não está mais tratando Siu Nim Tau e Cham Kiu como coisa, como nível, como domínio fechado. Está tratando os dois como instrumentos, como equipamentos para o Biu Ji. Como o alongamento que prepara para a ginástica: não é a ginástica, mas sem ele a ginástica não acontece. Disso decorre que o Biu Ji, na lógica do trecho, não deve ter existência só nele próprio: é sequência, é extensão dos dois anteriores.

Dispositivo e Jiu Sik 招式
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Claudio levantou se to kuen tem a ver com o termo dispositivo que Si Gung usa. Si Fu desfez a equivalência. O termo dispositivo, no vocabulário de Si Gung, substitui técnica. Técnica tem relação direta com a anatomia do gesto e seu uso utilitário: a chave de fenda gira na fenda; o soco serve para socar. Dispositivo está disposto a outras coisas, no plural, e não a uma coisa só. Aponta para fora do uso direto, na linha do Kuen Kuit 打手即消手 (Da Sau Jik Siu Sau): a mesma mão que ataca já dispersa.

Jiu sik é a expressão chinesa que costuma ser traduzida por “técnica”. O caractere 招 jiu tem o radical de mão (手) e fonético 召 (chamar); o Shuowen Jiezi define como “chamar com a mão”, e o 段注 reforça: não com a boca, mas com a mão. Jiu não é o gesto inerte, é o gesto que chama. O composto jiu sik não diz “forma-técnica” no sentido de procedimento útil; diz “gesto-que-chama em uma forma”.

Conta-se que alguém ofereceu dinheiro ao Si Gung para que ele ensinasse o Baat Jaam Do; Si Taai Gung respondeu que poderia ensinar qualquer coisa já que a pessoa não estava sabendo nem pedir. Se o que se transmite é técnica isolada, troca-se por dinheiro como se troca mercadoria, e o que sai do outro lado será inerte sem que o comprador perceba a diferença.

Se o que está em jogo é dispositivo, é preciso que existam conexões para que ele funcione adequadamente. A escolha do termo dispositivo foi cunhada em 1999, na missão da Moy Yat Sang International, na fórmula “dispositivos corporais de combate simbólico”. Anos depois, na mesma linha, componente veio substituir conteúdo, porque componente é o elemento que compõe, ao passo que conteúdo é o que está dentro de um componente.

Cuidado com dicionário e com IA
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A escavação por etimologia abre risco quando o dicionário é geral. O MDBG é o mais confiável dos dicionários gerais, mas não é dicionário de Kung Fu. Termos do sistema têm uso específico que o dicionário comum não cobre, da mesma forma que o vocabulário de TI ou o vocabulário de uma indústria de transporte não cabe num dicionário geral sem distorção.

Si Fu foi explícito quanto ao recurso a IAs (ChatGPT, Gemini, similares): evitar. E foi explícito quanto ao recurso ao dicionário de papel: vale a pena, dá mais trabalho, fixa melhor. Entre as duas edições do mesmo dicionário que ele tem em mãos, a versão vermelha (mais antiga) lhe parece mais concreta do que a azul (revisão posterior, dez anos depois). Para o estudo dos ideogramas vale o esforço de procurar no papel.

Cheung ak 掌握: dominar o kuen lei 拳理
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O trecho do Hai Tong fecha dizendo que, com o auxílio do primeiro e do segundo to kuen, se passa a dominar o kuen lei e a pôr em ação a veemência do Biu Ji. Traduz-se cheung ak como dominar porém a etimologia diz muito: Cheung 掌 é palma, mão aberta. Ak 握 é segurar, agarrar com a mão fechada. A composição cobre o intervalo entre os dois extremos: do mais aberto ao mais fechado, em todas as gradações intermediárias. Os três caracteres (手 sau, mão; 拳 kuen, punho fechado; 掌 cheung, palma aberta) partilham o mesmo radical de mão, e foi a comparação visual entre os três que abriu a leitura.

Cheung ak 掌握 não é, então, dominar no sentido fraco de fazer bem. É domínio soberano, controle completo na transformação inteira da mão, de ponta-a-ponta. Penso na ideia de conhecer como a palma da mão. Aplicado ao kuen lei, a lógica interna do punho, é o controle na variação que o sistema admite. Só se experimenta o Biu Ji em sua plenitude se houver maestria nos dominios anteriores.

A função prática do instrumental
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A última parte do encontro retomou o sentido da palavra instrumental no nome da série. Cantonês instrumental, ou Chinês instrumental, é instrumental porque aponta para a prática. Não é estudo de língua pelo prazer da língua; é ferramenta para que o praticante de Ving Tsun, em conversa com discípulo, possa usar os termos com lastro. Si Fu insistiu em três pontos: entender o Mandarim como raiz oficial e o Cantonês como variação social, sem se trancar no gueto do Kung Fu; ter ideia da estrutura linguística (qualificador antes, exceções culturais como nas relações familiares); e olhar o ideograma sem medo, sem decorar como bloco.

Apareceu uma anedota sobre uma loja de travesseiro em que o vendedor norte-americano comentou que o Inglês tem sete qualificadores em ordem fixa, e que inverter a ordem soa errado mesmo sem que ninguém saiba explicar a regra (A ordem dos adjetivos em Inglês); o ouvido do nativo carrega a regra. O Chinês tem padrões equivalentes, com exceções, e a meta do Chinês instrumental não é dominá-los todos, mas reconhecer que existem.

Estudar ideogramas no cotidiano
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Para fechar, foi sugerido como exercício prático o costume de assistir filme chinês com os olhos abertos para os ideogramas que aparecem em placas, cartazes e legendas de fundo. Funciona como o sinal de stop nas ruas: depois de visto algumas vezes, lê-se sem precisar parar para soletrar. Na semana anterior, ao ver Weekends in Taipei, foi possível identificar uma placa de colégio só pela combinação de radicais e contexto, sem ter o léxico completo.

Si Fu retomou também uma sugestão de Clóvis de Barros Filho: ler textos parando, pedaço por pedaço, extraindo o sentido antes de avançar. A premissa é que o autor se deu o trabalho de escrever e o trabalho do leitor é entender, não decorar nem voar. Pitágoras formulou o teorema; quem chega depois só precisa entender.

A próxima aula deve voltar ao Biu Ji propriamente dito, em particular ao ji nam cham 指南針, a bússola que dá o nome ao verdadeiro sentido do Biu Ji segundo o Hai Tong.