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Tupã: do trovão ao Deus catequético

Para os tupi-guarani anteriores ao contato, Tupã é o trovão, um fenômeno atmosférico carregado de poder. A palavra vem de tu (golpe) e pana (som, barulho), formando “barulho de golpe”. A ideia de divindade suprema e criadora aparece nos catecismos jesuíticos do século XVI.

Os jesuítas José de Anchieta e Manuel da Nóbrega, no século XVI, precisavam de uma palavra tupi que carregasse peso e temor pra traduzir o conceito cristão de Deus nos catecismos. Escolheram o trovão e, em seguida, reorganizaram o resto da cosmologia ao redor dele. Anhangá, espírito protetor de animais na tradição original, virou o correspondente local do diabo. O estudo publicado pela Tradterm (USP) sobre as traduções de Anchieta para o tupi documenta esse processo como tradução por inculturação.

A cosmologia guarani registrada por etnólogos décadas depois desloca o centro. Kurt Nimuendajú, em 1914, e León Cadogan, em Ayvu Rapyta, documentam Ñamandu como a entidade cosmogônica central entre os mbya-guarani. Ele aparece descrito como “o primeiro”, “a origem”, quem estabelece a ordem antes do mundo material existir. Tupã aparece no corpus, mas não ocupa o centro.