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Mestre Guilherme Farias: Os três pilares de Kung Fu - trabalho, energia, maturidade

No terceiro encontro do Programa de Mestrado, Mestre Guilherme de Farias, Moy Faat Lin 梅法蓮, trouxe uma nova leitura de 功夫 (Gōngfu / gung1 fu1): ao invés de se debruçar na etimologia, colocou os ideogramas como camadas e fases distintas do desenvolvimento do indivíduo.

A proposta dele: 功 (Gōng / gung1) se desdobra em dois componentes, 工 (Gōng / gung1), trabalho, e 力 (Lì / lik6), energia. Junto com 夫 (Fū / fu1), temos as três camadas da vida do praticante:

工 (Gōng / gung1) — Trabalho
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A primeira camada é trabalho. Labor. A dedicação física de repetir o gesto até entender por onde ele passa, o que ele pede, onde trava. É o praticante que está aprendendo a estacionar a mão no lugar certo. O foco aqui é no resultado: fiz ou não fiz, acertei ou errei. Não tem problema nenhum nisso. Todo mundo começa assim. Toda relação honesta com um sistema começa pela mecânica.

力 (Lì / lik6) — Energia
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A segunda camada é energia. Não mais a execução bruta, mas a economia do gesto. Quanto esforço foi necessário? Poderia ter sido menos? O que sobrou? Aqui o foco começa a migrar do resultado para o processo. Você já sabe fazer o Tan Sao. A pergunta agora não é se fez, é como fez. E “como” abre portas que “se” nunca vai abrir.

夫 (Fū / fu1) — Maturidade
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A terceira camada é fu. Maturidade. O ponto em que o que se aprende na técnica transborda. Não precisa mais se apegar ao movimento porque o movimento já te atravessou. Não é que a técnica não importa mais. É que ela deixou de ser o recipiente e virou o conteúdo.

夫 (Fū / fu1) carrega a ideia de maturidade porque o seu componente base é 大 (Dà / daai6), uma pessoa de braços abertos — grande, adulta. No ideograma 夫, essa pessoa ganha uma presilha nos cabelos: na China antiga, homens adultos prendiam o cabelo de forma específica. 夫 é alguém que já percorreu um caminho.

O Comentário do Si Fu
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O ponto que o Si Fu salientou é que o praticante está sempre em todas as etapas ao mesmo tempo. Importante não ter a ideia de que uma técnica é perfeita em si. Um Tan Sau nunca vai existir no vácuo, sempre vai depender do contexto de execução e sempre vai ter algo a dizer ao praticante.

A pessoa que faz Siu Nim Tau (小念頭) hoje não é a mesma que fez ontem. Ontem você não tinha vivido hoje. Então o que o sistema diz para você agora é algo que ontem ele não podia dizer, porque você não existia ainda nesta versão. O saber sistêmico é interativo, e interação pressupõe dois lados vivos. Se você mudou, o diálogo mudou.

Glosa
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Guilherme acabou me lembrando de uma das primeiras aulas propriamente ditas que tive com o Si Fu. Estava no final do Siu Nim Tau 小念頭 (Xiǎo Niàn Tóu / siu2 nim6 tau4) ainda, prestes a começar o Cham Kiu 尋橋 (Xún Qiáo / cam4 kiu4). Ele trabalhava com a Si Jeh Paula e explicava uma ideia sobre 大 (Dà / daai6) com três quadrados no quadro branco da primeira sala do Blue Sky.

Começava com dois quadrados. Um azul maior envolvendo de perto um verde um pouco menor.

Ele explicava: “Esse verde é um problema. Se você for pequeno, esse problema parece muito grande, vai te incomodar. A questão é que muitas vezes não temos como mudar os problemas. Eles são o que são. O que podemos trabalhar somos nós mesmos.”

Em seguida desenhava um grande quadrado preto quase do tamanho do quadro, envolvendo os dois anteriores: “Vê? Agora aquele problema que era grande e incomodava não passa de mais uma questão pequena. Com Kung Fu podemos trabalhar nós mesmos frente a essas dificuldades.”

Essa conversa tem mais de 20 anos. Obviamente o Si Fu não explicou com esses termos, mas o Guilherme e o comentário me fizeram relembrar que dentro de 夫 existe sempre um 大. Uma pessoa grande, que precisou e precisa seguir crescendo.

大 transforma em 夫; quadrado azul envolvendo quadrado verde