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Mestre Thiago Silva: A arte de saber viver a própria vida

O Programa de Mestrado alimenta o livro que venho escrevendo, um guia do sistema Ving Tsun lido pela lente do pensamento sistêmico. Si Fu abriu o terceiro encontro reafirmando o objetivo: “queremos registrar esse material, escrever esse material.” Cada fala dos irmãos, cada pergunta, cada provocação vira matéria-prima.

Quando chegou a minha vez, fui no sentido dos termos que não têm tradução.

A arte de saber viver a própria vida
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Em termos de pensamento chinês, e do aretê grego que o Si Fu acabara de discutir com o Márcio, a questão principal era saber como viver a própria vida. O Si Gung usa uma frase que carreguei para a fala: Kung Fu é a arte de saber viver a própria vida. Viver de acordo com os próprios valores.

Recorri ainda a outra frase, “a forma como você faz qualquer coisa é a forma como você faz todas as coisas”, que achei por muito tempo que fosse do Aristóteles. Não é. Mas a ideia vale: é cíclica.

Kung Fu é a arte de conseguir fazer as coisas de forma melhor, principalmente segundo a própria ótica. Cabe a cada um julgar o que está fazendo para sempre melhorar.

Sem sistema, Kung Fu vira refém
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Aí começa a entrar a penumbra do sistema. Sem sistema, o Kung Fu para de evoluir. O praticante chega no que considera ápice e, sem arcabouço para continuar refinando, fica refém de si mesmo. Refém do Kung Fu que ele mesmo desenvolveu.

Pode ser bom. Pode ser armadilha. A pessoa fica boa demais para fazer qualquer outra coisa que não seja o que já sabe.

O Comentário do Si Fu
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O Si Fu complementa a penumbra que abri. Quando a pessoa constrói algo e julga soberanamente o que está fazendo, esse julgamento é um estabelecimento soberano. Sober vem de “acima”. É a pessoa estabelecendo, para si, o que são seus valores.

Mas a soberania não flutua no vazio. Apoia-se num triângulo. Um vértice é o sistema, que dá arcabouço para continuar desenvolvendo. Outro vértice é o outro, e especificamente, a relação com o Sifu.

Não existe Kung Fu sem Sifu. Não existe auto-Kung Fu.

Si Fu insiste que Si Fu é função, não pessoa. Como pai é função. O Pedro, que estava com a filha no colo, não é pai em abstrato. É pai da filha dele. Dos bilhões de outras pessoas no mundo, ele não é pai de ninguém. Sem o filho, não tem pai. Sem o To Dai, não tem Si Fu e vice-versa.

Na ponta do triângulo estão o sistema e a família, representada pelo Si Fu. A soberania do julgamento pessoal não dispensa o encontro com esses dois.

Próximos passos
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O próximo encontro vai se debruçar sobre o sistema propriamente dito. Não a definição genérica, mas o sistema Ving Tsun: Chi Sao, linha central, funcionamento frontal, energia de preenchimento. Si Fu sugeriu sexta-feira e em torno de duas horas (online cansa mais). A data fica para o grupo confirmar.

Glosa
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Contribuí pouco na minha vez. Fiquei confuso, com muita coisa anotada e pouca organizada o suficiente para partilhar.

Caprichei nas notas dos irmãos em parte para compensar o que eu mesmo não consegui construir melhor na hora.

Tem um ponto que ainda estou tentando acomodar no meu pensamento: ao que parece, Si Fu separa o sistema Ving Tsun apenas ao conjunto de técnicas. Eu tenho uma visão mais holística: o Sistema Ving Tsun se baseia na família Kung Fu se replicando e refinando geração após geração. Quando Leung Bok Toa atribui à fundadora, sua esposa, o nome do sistema, ele está dizendo, de certa forma, que o que ele tem veio de um anterior.

Quando Si Taai Gung afirmava que iria transmitir da mesma forma que aprendeu, reproduzia essa afirmação.

Quando Si Gung cria a ideia de denominação Moy Yat Ving Tsun, também está ecoando a mesma ideia.

Quando nós nos vinculamos ao Instituto Julio Camacho, também rimamos o mesmo movimento.

Para mim, a família é parte do sistema. É a partir dela que o sistema se refina e se perpetua (o que eu chamo de “pegadinha” sistêmica dele). O conjunto de técnicas não sobrevive no vácuo. Se fosse assim, poderia ser transmitido em livros, internet, vídeos. O que garante a legitimidade e eficiência do próprio processo é o nosso vínculo com a geração imediatamente anterior, não adianta buscar atalhos.

Si Fu durante o III Encontro do Programa de Mestrado, com o emblema da família Moy Jo Lei Ou no fundo
III Encontro do Programa de Mestrado — Si Fu e o emblema da família Moy Jo Lei Ou