A teoria da dádiva: dar, receber, retribuir (Mauss, 1925)
O Essai sur le don saiu em 1925, na nova série de L’Année Sociologique. É nele que Mauss formula a teoria da dádiva.
Nas sociedades sem mercado e sem contrato escrito, por que os presentes recebidos obrigam ao retorno? O que dentro da coisa dada pede para voltar a quem deu? Mauss recusa duas saídas: o cálculo de interesse disfarçado e o altruísmo puro. A resposta é a tríplice obrigação: dar, receber, retribuir. As três pesam igual: recusar dar é declarar guerra; aceitar sem retribuir é aceitar inferioridade; retribuir restabelece a equivalência. A dívida pendurada entre as pessoas é o que as mantém ligadas.
A dádiva, para Mauss, é fato social total. Mobiliza ao mesmo tempo a economia, o direito, a religião, a política, a estética e a moral da sociedade, sem se reduzir a nenhuma delas.
Os materiais que ele percorre são o kula dos Trobriand, descrito por Malinowski em Argonauts of the Western Pacific (1922): colares e braceletes circulam em direções opostas entre as ilhas, ninguém retém em definitivo. O potlatch dos Kwakiutl e Tlingit da costa noroeste norte-americana, em que chefes destroem ostentativamente os próprios bens para mostrar que podem dar mais do que o rival jamais conseguirá retribuir. Da Polinésia vem a categoria mais célebre do ensaio: o hau, “espírito da coisa dada” segundo o informante maori Tamati Ranaipiri, registrado por Elsdon Best. Algo do doador mora dentro da coisa e quer voltar para casa: é isso que explica a obrigação de retribuir como força do próprio objeto. Mauss recua também ao direito romano arcaico, em que o vínculo do nexum faz a coisa dada continuar pertencendo simbolicamente ao doador; aos textos brâmanicos sobre o dāna, em que um presente mal retribuído trazia perigo para quem recebia; à etnografia samoana, com a troca cerimonial de oloa e toŋa entre linhagens paterna e materna no casamento. O argumento é universalista: a dádiva atravessa civilizações com e sem mercado, com e sem direito escrito.
A influência do Essai atravessa o século XX. Em 1950, Lévi-Strauss escreve a “Introduction à l’œuvre de Marcel Mauss” para abrir Sociologie et Anthropologie e ali transforma a dádiva em fundamento estrutural da troca como princípio elementar da sociabilidade humana. Essa leitura organiza As Estruturas Elementares do Parentesco (1949), em que o casamento é descrito como circulação obrigatória de mulheres entre grupos exogâmicos. Sahlins retoma a tipologia das reciprocidades em Stone Age Economics (1972). Bourdieu, em Sens pratique (1980), desloca o foco para o tempo entre dar e retribuir e para a denegação que faz a dádiva parecer desinteressada. L’Énigme du don (1996), de Godelier, reabre a discussão. Em 1981, Alain Caillé e outros fundam o movimento M.A.U.S.S. — Mouvement Anti-Utilitariste dans les Sciences Sociales —, que faz da dádiva o eixo de uma crítica ao economicismo nas ciências sociais.
