O tempo se mede na alma (Agostinho, Confissões XI)
No Livro XI das Confissões (escrito c. 397–400), Agostinho interrompe o comentário ao Gênesis para perguntar o que é o tempo. A formulação ficou célebre: “Quid est ergo tempus? Si nemo ex me quaerat, scio; si quaerenti explicare velim, nescio” (XI.14.17). Se ninguém lhe pergunta, ele sabe o que é o tempo; quando tenta explicar a quem pergunta, não sabe mais.
O passado já não é, o futuro ainda não é, e o presente, se fosse sempre presente sem escorrer para o passado, deixaria de ser tempo para ser eternidade (XI.14.17). O presente tampouco tem duração: todo intervalo se parte em porção já ida e porção por vir, e o instante puro não se mede porque não tem extensão. Fica a pergunta de como medir aquilo que, no rigor, não é: o que já passou, o que ainda não veio, e o que não dura.
Agostinho localiza o tempo dentro do sujeito. Os “três tempos” são, no rigor, três presentes na alma: praesens de praeteritis, praesens de praesentibus, praesens de futuris, isto é, a memória, a atenção e a expectativa (XI.20.26). O passado subsiste como memória presente, o futuro como expectativa presente. Fora da alma que retém e antecipa, não há onde alojá-los.
Daí vem a definição do tempo como distentio animi, distensão da alma (XI.26.33). Medir o tempo é medir a impressão que as coisas em trânsito deixam na alma e que nela fica. Por isso Agostinho escreve “in te, anime meus, tempora metior”, é em ti, minha alma, que meço o tempo (XI.27.36). A medida está na alma, mais do que no movimento dos astros, que ele já havia recusado como medida do tempo (XI.23).
O contraponto é a eternidade divina. Se no homem o tempo é distensão, em Deus não há distensão nem sucessão: todos os tempos lhe são presentes de uma vez, pela permanência de uma eternidade que não flui (XI.13).
O mesmo argumento reaparece em Borges, que o leva ao limite e nega o tempo por inteiro em Nueva refutación del tiempo, antes de recuar na última frase. E os espaços feitos para suspender a percepção temporal, sem relógio nem janela e com iluminação constante, tiram da duração os seus marcos externos, o que conversa com a tese agostiniana de que a medida do tempo depende da alma.
