Sou humano, nada do que é humano me é estranho
Verso de Terêncio em Heauton Timorumenos (O Atormentador de Si Mesmo), peça encenada em 163 a.C. No latim original: Homo sum, humani nihil a me alienum puto. A fala é de Crêmes, vizinho intrometido, respondendo a Menedemo que lhe perguntara por que se ocupava da vida alheia. No contexto da comédia, é defesa de bisbilhotagem; a posteridade leu como princípio de solidariedade humana.
Carrego a frase como princípio estoico, lendo no literal: se nada que é humano me é estranho (alienum), então qualquer coisa que outro humano possa fazer, eu também posso.
Tudo humano está dentro meu potencial, desde as maiores virtudes, a maior sabedoria quanto os piores vícios e barbáries. Temos que ser responsáveis com o mundo ao nosso redor.
Cícero usa o verso duas vezes: em De Legibus 1.33 para argumentar que a justiça é universal e alcança todos os povos sem exclusão, e em De Officiis 1.30 para justificar o dever de estender a outros o cuidado natural que damos a nós mesmos;
Sêneca cita Terêncio na Epístola 95 ao argumentar que a ética não se esgota em não fazer mal: somos membros de um mesmo corpo (membra sumus corporis magni) e devemos uns aos outros o cuidado ativo, não só a abstenção;
Marco Aurélio abre as Meditações (II.1) lembrando-se de que quem faz o mal partilha da mesma natureza que ele;
Montaigne gravou a versão abreviada (HVMANI NIHIL ALIENVM) numa viga da biblioteca da sua torre, lendo a frase como confissão da própria fragilidade humana;
Marx registou Nihil humani a me alienum puto como lema favorito num questionário-confissão que as filhas lhe pediram para responder em 1865;
Dostoiévski subverte o verso em Os Irmãos Karamázov (Livro XI, Cap. IX): o Diabo que assombra Ivan diz Satanas sum et nihil humanum a me alienum puto (eu sou Satã, e nada do que é humano me é estranho).
