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Sokal: Transgressing the Boundaries (of science)

Em maio de 1996, o físico Alan Sokal (NYU) publicou em Social Text o artigo “Transgressing the Boundaries: Towards a Transformative Hermeneutics of Quantum Gravity”. O texto era deliberadamente sem sentido, costurando jargão de física quântica e gravidade quântica a citações de Derrida, Lacan e Irigaray. A revista o aceitou e publicou no número especial dedicado às “guerras das ciências” sem submeter a revisão técnica.

Três semanas depois, Sokal revelou a farsa em Lingua Franca. O ponto era de método. Se um texto cujas afirmações são absurdas mesmo aos próprios olhos do autor passa pela revisão de uma revista de prestígio, isso diz algo sobre os critérios de validação do campo.

No ano seguinte, com Jean Bricmont, publicou Fashionable Nonsense, catalogando abusos de termos de física e matemática por filósofos franceses. As principais transgressões inventariadas:

  • Lacan: aplicou topologia (banda de Möbius, toro, garrafa de Klein) e teoria dos nós como modelo da estrutura psíquica. Identificou o “irracional” emocional ao número imaginário matemático √-1 e, por uma derivação que envolve o significante da falta e a função do gozo (jouissance), concluiu que o órgão erétil é equivalente a √-1. Para Sokal e Bricmont, não basta dizer que a analogia é falsa: é puro disparate.

  • Kristeva: fundamentou uma teoria da linguagem poética em teoria dos conjuntos, invocando o Axioma da Escolha e a Hipótese do Continuum. A tese central: a poesia “transgride” a lógica binária 0/1 de Boole. Sokal e Bricmont mostraram que ela inverteu o teorema de Gödel, confundiu o Axioma da Escolha com construtibilidade e transcreveu definições erradas.

  • Irigaray: classificou E=mc² como “equação sexuada” por privilegiar a velocidade da luz sobre velocidades menores “vitais para nós”. Argumentou que a mecânica dos fluidos foi negligenciada por uma “física masculina” que privilegia o sólido. Sokal e Bricmont retorquiram que a dificuldade do tema está nas equações de Navier-Stokes, não no patriarcado.

  • Latour: cientistas franceses determinaram em 1976 que Ramsés II havia morrido de tuberculose por volta de 1213 a.C. Latour perguntou como o faraó poderia ter morrido de um bacilo só descoberto por Koch em 1882, e sustentou que “antes de Koch, o bacilo não tinha existência real”. Sokal e Bricmont: ou Latour aceita que nada existia antes de ser descoberto, ou precisa explicar o que há de especial em bacilos.

  • Baudrillard: empilhou termos de física relativística, geometria fractal e teoria do caos em sentenças sobre fenômenos sociais. Sokal e Bricmont: “uma profusão de termos científicos usados com total desprezo por seu significado e, sobretudo, num contexto onde são manifestamente irrelevantes”.

  • Deleuze & Guattari: em Caosmose e Mil Platôs, importaram cálculo diferencial, topologia, mecânica quântica e teoria do caos para a filosofia da diferença. Sokal e Bricmont qualificaram uma passagem central de Guattari como “a mais brilhante mistura de jargão científico, pseudo-científico e filosófico” que encontraram em todo o material analisado.

  • Virilio: ao formular uma “dromologia” como física da velocidade social, confundiu aceleração com velocidade. Sokal e Bricmont resumem o uso viriliano da física como “um coquetel de confusões monumentais e fantasias delirantes”.

Em todos os casos, o vocabulário científico operava como ornamento de autoridade, sem amarração ao conteúdo técnico.

O contraste útil é com Žižek. Quando escreve sobre mecânica quântica, toma os achados como dados e pergunta o que significam para a ontologia: o que a indeterminação do colapso, a não-localidade, o vácuo quântico dizem sobre o ser, a falta, o real. Não disputa a equação de Schrödinger. Lê o que ela descreve.

A diferença com Lacan-da-topologia está na camada. Importar a banda de Möbius como modelo da estrutura psíquica é movimento técnico, no terreno do matemático. Perguntar o que a função de onda implica para o real é movimento ontológico, no terreno do filósofo.

A frase de Streck na chave da filosofia da ciência: pode-se falar de qualquer coisa, desde que se respeite a posição.