'Servi sunt.' Immo homines
Da Epistula 47.1 a Lucílio, sobre senhores e escravos: “‘Servi sunt.’ Immo homines. ‘Servi sunt.’ Immo contubernales. ‘Servi sunt.’ Immo humiles amici. ‘Servi sunt.’ Immo conservi” (“São escravos.” Não, são homens. São escravos. Não, companheiros de tenda. São escravos. Não, amigos humildes. São escravos. Não, condisciplinados).
A carta é o documento mais citado da reflexão estoica antiga sobre escravidão. Sêneca não propõe abolição (instituição que nenhum estoico romano questionou estruturalmente), e o argumento se concentra contra crueldade, espancamento à mesa e o silêncio forçado dos escravos durante a refeição do senhor. Em 47.10 vem a sentença complementar: “vis tu cogitare istum quem servum tuum vocas ex isdem seminibus ortum” (pensa que esse que chamas de escravo brotou das mesmas sementes, frui o mesmo céu, igualmente respira, igualmente vive, igualmente morre). A passagem marca, na história da ética ocidental, o argumento da humanidade compartilhada antes da formulação cristã.
