Sabotagem da troca: ganhar o máximo dando o mínimo
Sabotagem da troca é o conceito-eixo do livro Cabaré, de Natânia Lopes, e descreve o princípio de funcionamento do trabalho da puta. A definição é direta: ganhar o máximo dando o mínimo. A puta aceita vender sexo por dinheiro, mas o jogo é minimizar o que entrega e maximizar o que recebe.
O conceito se constrói em oposição explícita à teoria da dádiva de Marcel Mauss. A dádiva sustenta a sociabilidade através de um circuito de equivalência simbólica obrigatória: dar, receber, retribuir, em proporção justa que mantém o vínculo. A sabotagem rompe o circuito intencionalmente. Não há retribuição justa: há retribuição mínima, retribuição falsa, ou aparência de retribuição que desfaz a obrigação no ato.
Os exemplos do livro são concretos. O blefe do sexo anal: a call girl combina por telefone que aceita sexo anal só se o pau do cliente não for grande; chegando ao quarto, declara grande qualquer pau, e cobra o cachê sem fazer. O programa de incesto: duas amigas fingem ser irmãs para um cliente com fetiche, ganham dez mil reais cada por uma encenação. A malandragem do flerte: chamar de amor, performar carinho, executar a subalternidade que o cliente espera, sem nada disso ser real.
Para Natânia, a sabotagem da troca não é falha ética. É justiça simbólica. As mulheres acumulam mágoa cotidiana em todas as relações com homens, do cara que mexe no bar ao marido e ao pai, e a prostituição é a única arena em que essa dívida histórica encontra forma de cobrança organizada. O conceito articula assim economia da troca e revanchismo de gênero numa única operação: o que parece transgressão moral é, em outra moral, restituição. As regras são outras.
