O que é uma categoria, para Ryle
Resta a pergunta de fundo: “O que é, afinal, uma categoria, para Ryle?” Ele se recusa a responder na forma esperada. A recusa é deliberada.
A pergunta esbarra onde ele resiste#
Pedir “o que é uma categoria?” e esperar uma resposta do tipo “categoria é uma X com a propriedade Y” supõe que categoria é uma coisa com essência. Esse é o impulso que Ryle quer interromper. Você aplica à palavra “categoria” o mesmo tipo de pergunta que ele acha mal-formulada quando aplicada a “mente” ou “Universidade”.
O que ele afirma#
Ryle define categoria como tipo lógico de uma expressão. Tipo lógico é a posição que uma expressão ocupa em frases possíveis: o que pode preceder, o que pode seguir, com o que pode ser substituída sem absurdo. Categoria é diferença de comportamento gramatical-lógico. Nada por baixo dela.
A SEP descreve o método de Ryle como logical geography: mapear o terreno conceitual sem deduzi-lo de princípios.
Uma analogia (minha, ilustrativa)#
A pergunta “o que é uma categoria?” tem a mesma estrutura de “o que é o lado esquerdo?”. Tentar responder “o lado esquerdo é uma região do espaço com a propriedade Y” soa estranho. A resposta correta é posicional: o lado esquerdo é a metade do campo onde não está o lado direito, definido pela orientação do observador. Não há essência do “esquerdo”.
Categoria, para Ryle, é assim. Não há entidade chamada “categoria” por baixo do uso da palavra. Há apenas o comportamento gramatical-lógico das expressões e o sintoma do absurdo quando esse comportamento é violado.
Por isso não há tábua#
Aristóteles dá uma tábua de dez categorias supremas porque, para ele, categorias são gêneros máximos do ser. Cada categoria é uma classe ontológica (substância, qualidade, quantidade…) que diferencia tipos de entes no mundo.
Ryle inverte. Categorias diferenciam tipos de expressões, não tipos de entes. Não há número finito porque não há inventário acabado de tipos lógicos. Sempre pode aparecer uma frase-modelo que separa duas expressões antes “iguais”. A ontologia (lista do que existe) é redirecionada para a gramática (lista de como podemos significativamente falar).
Implicação#
Ryle dissolve o problema ontológico em problema gramatical. A pergunta “o que existe?” é refeita como “como falamos significativamente sobre o que existe?”. A posição conecta Ryle à filosofia da linguagem comum (Austin, Wittgenstein tardio) e o afasta da tradição metafísica que vai de Aristóteles a Wolff.
Notas de verificação#
- ✓ Recusa de Ryle a dar definição positiva: confirmada implicitamente pela SEP, que descreve seu método como diagnóstico, não como teoria das categorias.
- ✓ “Logical geography” como auto-descrição: SEP “Gilbert Ryle”.
- ✓ “No finite number of categories or types”: SEP “Gilbert Ryle”.
- ⚠ A analogia do “lado esquerdo” é minha, não de Ryle. Marcada explicitamente como ilustrativa.
- ⚠ A leitura “Ryle dissolve ontologia em gramática” é interpretação corrente em fontes secundárias (linha Wittgenstein-Austin-Ryle), não citação literal dele.
Fontes secundárias:
- SEP, Gilbert Ryle
- SEP, Category Mistakes
