Ir para o conteúdo principal

← todas as notas

Rascunho sobre o que é Kung Fu

Kung Fu
#

“Kung Fu não pode ser ensinado, mas pode ser aprendido.” — Si Taai Gung Moy Yat

Um livro sobre Kung Fu escrito por alguém que acredita que Kung Fu não pode ser ensinado. Parece contraditório — e é. Mas essa contradição é o ponto de partida, não o obstáculo.

No Fedro, Platão coloca na boca de Sócrates uma crítica à escrita: ela daria aos jovens a aparência de sabedoria sem a verdadeira sabedoria, pois substituiria o esforço interno da memória por marcas externas. O conhecimento verdadeiro, para Sócrates, só poderia nascer do diálogo vivo entre mestre e discípulo — um discurso que se adapta, que responde, que “escreve na alma”. Um livro não faz isso. Um livro repete a mesma coisa para qualquer um que o abra.

E no entanto, Platão escreveu. Escreveu muito. Escreveu inclusive essa crítica à escrita.

Si Taai Gung Moy Yat resolvia esse paradoxo com uma distinção sutil: “Não tenho como te ensinar Kung Fu, mas posso te ensinar técnicas de Ving Tsun Kung Fu.” A técnica é transmissível — pode ser descrita, demonstrada, repetida. O Kung Fu, não. O Kung Fu é o que acontece com você enquanto pratica a técnica. E isso ninguém faz por você.

Este livro, então, não ensina Kung Fu. Ensina técnicas — chaves de pensamento sistêmico a partir do Ving Tsun que podem ser úteis para quem quiser desenvolver o seu próprio. Assim como Platão resolveu escrever mesmo sabendo das limitações da escrita, escolhemos oferecer um mapa sabendo que o mapa não é o território.

Mas antes de abrir o mapa, vale olhar para o nome que damos ao território.

O que o nome diz
#

功夫 — dois ideogramas, nenhuma referência marcial.

O primeiro, 功 (gung), combina 工 (trabalho, esforço) com 力 (energia, força) — o desenho de um arado na terra. Juntos, passam a ideia de uma realização por mérito, um bom resultado através de trabalho dedicado.

O segundo, 夫 (fu), representa uma pessoa madura — o ideograma de “grande” (大) com uma presilha nos cabelos, como os homens casados prendiam o cabelo na China antiga.

Kung Fu: amadurecimento pelo trabalho. Só isso.

É notável o que não está ali. Não há socos, chutes, armas ou combate. Não há sequer movimento. O que os ideogramas descrevem é um processo — alguém que se dedica a algo por tempo suficiente para se transformar. O padeiro que acorda às três da manhã há trinta anos tem Kung Fu. O programador que refatora o mesmo sistema até ele ficar simples tem Kung Fu. A avó que sabe o ponto exato do arroz sem medir nada tem Kung Fu.

Se Kung Fu descreve um processo e não uma disciplina, então ele não pertence às artes marciais — as artes marciais é que podem conter Kung Fu. Ou não. E essa inversão é o primeiro sinal de pensamento sistêmico: confundir o recipiente com o conteúdo é um erro clássico de quem olha para a parte achando que vê o todo.