A puta como 'a outra': alteridade dos afetos
A puta não é desvio do feminino normal: é o feminino-outro que sustenta por contraste o feminino-de-família. A formulação de Natânia Lopes em Cabaré coloca a puta como “outra” em três frentes simultâneas. Outra de si mesma — porque a puta no trabalho não é a mesma pessoa que é fora dele, e a separação tem que ser ativamente mantida. Outra da moça de família — porque é contra a figura da puta que se constrói a respeitabilidade do casamento, da maternidade e do amor romântico. Outra do bandido — porque a puta é a figura simétrica feminina do bandido masculino, no mesmo submundo dos afetos e da economia paralela. As três alteridades operam ao mesmo tempo.
A descoberta de Natânia, no campo, é que essa duplicação é trabalho técnico, não dado natural. Existe infraestrutura material para mantê-la. O chip do mal — segunda linha telefônica que a call girl usa exclusivamente para o trabalho — é o exemplo mais limpo. Numa sociedade em que o número de telefone funciona como quase-CPF, a puta precisa de outra linha porque ela é estruturalmente outra. Cada cliente entra em contato com a versão-puta da pessoa, jamais com a versão-civil. O chip separa identidades como uma membrana separa fluidos.
A teoria geral está em Mary Douglas, Purity and Danger (1966). Toda sociedade organiza seus sistemas de pureza definindo categorias-limite, e cada categoria é mantida por proibições de mistura, dispositivos de separação e rituais de purificação. A puta, em sociedades organizadas em torno do casamento monogâmico e da família patriarcal, é uma das categorias-limite mais carregadas: o que ela é não pode ser tocado pelo que a esposa é, e vice-versa. Se a esposa transa por dinheiro, vira puta. Se a puta se apaixona, perde o ofício. A separação é simbólica antes de ser legal.
A consequência prática para Natânia é que o trabalho da puta inclui sempre a manutenção da fronteira. Não basta executar o programa: é preciso que o programa não vaze para a vida-fora-do-programa, e que a vida-fora não vaze para dentro. O chip do mal é só o primeiro nível. Acima dele estão as fotos sem rosto, os nomes de guerra, as cidades alternativas em que se trabalha, os dias em que se some, os silêncios sobre o que se faz. Toda a engenharia da puta como outra existe porque a categoria não se sustenta sozinha — precisa ser mantida em obra.
