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Porto, a Cidade Invicta

Porto existe por causa do Morro da Pena Ventosa, um promontório de granito sobre o Douro. As escavações na Rua D. Hugo (1984–87) revelaram vinte estratos arqueológicos em três metros de profundidade, do século V–IV a.C. até hoje. O castro que ali se ergueu chamava-se Cale. A origem do nome é disputada: raiz celta cal- (“pedra”, “duro”), ligada aos Callaeci, o povo do noroeste peninsular, Cale como “lugar rochoso”; grego kallis (“belo”), hipótese enfraquecida pela presença grega tênue na região; latim calidus (“quente”), possível referência a fontes termais, provavelmente uma reinterpretação romana de nome pré-existente; e cala (“enseada”, “abrigo”), apontando para o porto natural na foz do Douro. Nenhuma tem prova documental.

Entre os séculos VIII e V a.C. os habitantes de Cale já mantinham contato com a Bretanha e as ilhas britânicas, vestígios de rotas comerciais atlânticas anteriores a Roma.

Roma chegou por volta de 200 a.C. e rebatizou o sítio de Portus Cale. Em 136 a.C. Décimo Júnio Bruto Galaico subjugou os Callaeci e consolidou o domínio romano no noroeste peninsular. A cidade tornou-se escala comercial entre Olisipo (Lisboa) e Bracara Augusta (Braga).

Depois de Roma vieram os Suevos (séc. V), os Visigodos e, em 716, os Mouros. A ocupação muçulmana foi breve: Afonso I das Astúrias retomou a cidade por volta de 750. Em 868, Vímara Peres reconquistou e repovoou a região entre Minho e Douro, fundando o Condado Portucalense. O nome do país vem daqui.

Se o Porto deu o nome ao país, nunca lhe deu a capital. A sede do reino foi primeiro Guimarães, depois Coimbra. Em 1249, Afonso III completou a Reconquista ao tomar o Algarve, e Coimbra ficou no terço norte de um reino que agora chegava ao extremo sul. Entre 1255 e 1256 transferiu a corte para Lisboa. Não houve decreto formal. A chancelaria mudou-se e não voltou. Lisboa tinha o estuário do Tejo, era a cidade mais populosa e rica do reino, e ficava no centro do território expandido.

A posição costeira que fez Lisboa rica também a fez vulnerável. Castela cercou-a em 1373, o que levou à construção da muralha fernandina. Em 1580, o exército de Filipe II venceu em Alcântara, às portas da cidade. Quando Junot marchou sobre Lisboa em 1807, a corte inteira fugiu para o Rio de Janeiro, que durante catorze anos funcionou como capital de facto do império. Wellington ergueu as Linhas de Torres Vedras (1809–1810), um sistema de fortificações a norte de Lisboa, porque a cidade era indefensável sem elas. Mesmo assim ninguém mudou a capital.

O epíteto Invicta vem das Guerras Liberais. Pedro IV, o mesmo Pedro I que declarou a independência do Brasil em 1822, desembarcou no Mindelo a 8 de julho de 1832 e ocupou o Porto para defender o trono da filha, Maria II, contra o irmão Miguel I. Os absolutistas cercaram a cidade durante treze meses. Bombardeamento, fome, cólera, tifo. O Porto não capitulou. A 20 de agosto de 1833 o cerco foi levantado. Maria II concedeu à cidade o título Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto. O título não reclama invulnerabilidade histórica. A cidade já tinha caído antes. Celebra esta resistência específica.

Antes de ser Invicta, o Porto já era tripeiro. A tradição liga o apelido à conquista de Ceuta em 1415: a população teria entregue toda a carne boa para aprovisionar a frota de D. João I, ficando apenas com as tripas. Daí as tripas à moda do Porto. É lenda, não crónica. Zurara documentou a expedição em detalhe e não menciona o episódio. O prato provavelmente é anterior, talvez herdado dos Suevos.