Por que o Ocidente chamou o combate de 'arte'
Em “arte marcial”, “arte” está no sentido velho: ofício, perícia, saber-fazer. O sentido de belas-artes, pintura e música com o prazer por fim, só se fixa no séc. XVIII, com Charles Batteux e o Les beaux-arts réduits à un même principe (1746).
“Marcial” vem de Marte, o deus romano da guerra. O “arte” é que interessa, e ele aparece logo nas capas dos tratados do séc. XVI.
Achille Marozzo, mestre bolonhês que se intitula maestro generale de l’arte de l’Armi (mestre geral da arte das armas), publica em Modena, em 1536, a Opera Nova chiamata Duello, overo Fiore dell’Armi. Camillo Agrippa, em Roma, 1553, o Trattato di scientia d’arme con un dialogo di filosofia (“tratado da ciência das armas, com um diálogo de filosofia”). Na Inglaterra, os mestres de esgrima se organizam como Masters of the Noble Science of Defence, com carta patente de Henrique VIII em 1540.
Agrippa aplica geometria ao combate: reduz as guardas tradicionais a quatro, descreve os golpes em termos euclidianos, chega a reduzir o corpo a pontos e linhas. Marozzo cataloga cada arma, com teoria, sequências e as regras do duelo. O combate deixa de ser instinto e vira matéria com regra, que se escreve, se ensina e se discute.
O que “arte” queria dizer#
Chamar aquilo de arte era dizer que ali havia razão. A palavra latina ars traduzia o grego τέχνη (téchnē), e τέχνη não é beleza. Vem da raiz que significa “tecer, fabricar”, a mesma de τέκτων (téktōn, o carpinteiro) e do latim texere, tecer, de onde vem “texto”. Arte é compor partes numa ordem, como quem tece.
No Górgias, Platão separa a τέχνη do mero traquejo: uma arte dá conta das causas do que faz e visa um bem; o traquejo, ganho na repetição, acerta às cegas, e Platão o rebaixa à companhia da bajulação e da culinária. Briga é traquejo. Em Aristóteles, na Ética a Nicômaco, τέχνη é a disposição para produzir acompanhada de razão verdadeira, a capacidade racional de fazer aquilo que pode ser ou não ser. Chamar a esgrima de arte era colocá-la desse lado, o de um saber que explica por que funciona.
Coisa de homem livre#
“Arte”, no vocabulário clássico, carregava uma hierarquia, e a esgrima entrava nela por baixo.
As artes liberales eram as artes dignas de um homem livre; liberalis quer dizer isso, “de homem livre”, de liber. Sêneca, na Epístola 88, pergunta por que os estudos se chamam liberais e responde que é porque são dignos de um homem livre. E segue com desprezo pelo que dá lucro: para ele a única arte de fato liberal é a sabedoria, a que dá a um homem a sua liberdade, e o resto é aprendizado, não trabalho de verdade. Aristóteles, na Política, é mais duro com o corpo: chama de banausos, vulgar, toda ocupação que deforma o corpo do homem livre ou o torna menos apto à virtude, e inclui aí todo emprego pago, que para ele absorve e degrada a mente.
Do outro lado dessa linha estavam as artes mecânicas, as da mão. Hugo de São Vítor, no séc. XII, fixou sete delas em paralelo às sete liberais, e a segunda da lista é a armatura, a arte das armas. A esgrima era, pela régua clássica, duplamente indigna. Vinha do corpo, como toda arte mecânica, e era paga, já que os Masters of Defence eram uma guilda de professores licenciados, que viviam do ofício.
Geometria era uma das sete liberais, do quadrivium, ao lado da aritmética, da música e da astronomia. Ao escrever o combate em geometria, Agrippa e os seus pegavam emprestado o prestígio que a tradição negava às armas. Puxavam o ofício da mão para a companhia das disciplinas da mente, e o fixavam no impresso, sob o nome de um mestre.
Por isso “arte marcial” soa deslocado hoje. Usamos a palavra no sentido que ela ganhou no séc. XVIII e a colamos numa coisa que a recebeu no sentido do séc. XVI.
