Notas
Índice cronológico de todas as notas do Scholion.
2131 notas · última:
Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes
Ode de Ricardo Reis, datada 14 fev 1933 (Arquivo Pessoa 503). Estoicismo neoclássico do heterônimo horaciano de Pessoa.
Par définition, il ne peut se mettre aujourd'hui au service de ceux qui font l'histoire: il est au service de ceux qui la subissent
Discurso do Nobel (1957). Camus define o papel do escritor: a serviço de quem sofre a história, não de quem a faz.
O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem
Frase atribuída em redes sociais a Pessoa, Fernando Sabino e Baudelaire. Autor real: Maria Júlia Paes da Silva, professora de enfermagem da USP, em livro acadêmico.
O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente
Quadra inicial de Autopsicografia, ortônimo Pessoa (1 abr 1931, pub. Presença 1932). Definição programática da heteronímia tratada como teoria poética.
O mito é o nada que é tudo
De Ulisses, primeiro poema de Mensagem (1934). Definição do mito como nada que sustenta tudo, na fundação mítica de Lisboa.
O essencial é saber ver, saber ver sem estar a pensar
Do poema XXIV de O Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro (Athena nº 4, jan 1925). Programa pedagógico do heterônimo: ver é tarefa, separada do pensar.
Nous ne pouvons rien affirmer qui ne soit aussitôt démenti par celui qui le contredit
De La Chute (1956). Clamence sobre a impossibilidade da inocência: qualquer afirmação encontra negador imediato.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto
Abertura de Aniversário, Álvaro de Campos (15 out 1929). Face nostálgica de Campos, contraposta à exuberância de Ode Triunfal e Ode Marítima.
Navegar é preciso; viver não é preciso
Pessoa cita explicitamente como frase dos navegadores antigos. A formulação latina (Navigare necesse) é atribuída por Plutarco a Pompeu, séc. I a.C.
Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo
Abertura de Tabacaria, Álvaro de Campos (15 jan 1928, pub. Presença 1933). Sequência da escalada niilista do heterônimo modernista de Pessoa.
Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem achei
Do Cancioneiro (ortônimo Pessoa, 1930). Atenção: circula frequentemente atribuída a Ricardo Reis — o poema-base é do ortônimo, não do heterônimo.
Minha pátria é a língua portuguesa
Do Livro do Desassossego (Bernardo Soares), fragmento 259 (ed. Coelho 1982). Trecho originalmente publicado em vida na revista Descobrimento (1931).
Mais qu'est-ce que ça veut dire, la peste? C'est la vie, et voilà tout
De La Peste (1947), fala de Tarrou. A peste é a vida — não metáfora, condição estrutural da existência humana.
Les hommes meurent et ils ne sont pas heureux
De Caligula (1944), ato I, cena 4. A constatação minimalista de Calígula que dispara a lógica absurda do resto da peça.
Le mal qui est dans le monde vient presque toujours de l'ignorance, et la bonne volonté peut faire autant de dégâts que la méchanceté, si elle n'est pas éclairée
De La Peste (1947). Tarrou a Rieux: o mal vem quase sempre da ignorância, e a boa vontade não esclarecida pode causar tanto estrago quanto a maldade.
La vraie générosité envers l'avenir consiste à tout donner au présent
De L'Homme révolté (1951), seção La pensée de midi. Generosidade com o futuro é dar tudo ao presente: contra o sacrifício do agora.
La lutte elle-même vers les sommets suffit à remplir un cœur d'homme. Il faut imaginer Sisyphe heureux
Última frase de Le Mythe de Sisyphe (1942). É preciso imaginar Sísifo feliz: a aceitação consciente do absurdo como vitória.
Je voudrais pouvoir aimer mon pays tout en aimant la justice
De Lettres à un ami allemand, primeira carta (julho 1943). Camus tenta articular patriotismo e justiça em meio à ocupação nazista.
Je me révolte, donc nous sommes
De L'Homme révolté (1951), introdução. O cogito da revolta como substituto comunitário do cogito cartesiano: a revolta funda o nós, não o eu.
Je m'ouvrais pour la première fois à la tendre indifférence du monde
Última cena de L'Étranger (1942). Meursault na cela, depois da explosão contra o capelão, abre-se à indiferença benigna do universo.
J'exerce donc, à Mexico-City, depuis quelque temps, ma profession de juge-pénitent
De La Chute (1956). Clamence revela ao interlocutor a profissão que inventou: juiz-penitente. A figura é o último Camus moral.
J'ai donc besoin de la lune, ou du bonheur, ou de l'immortalité, de quelque chose qui soit dément peut-être, mais qui ne soit pas de ce monde
De Caligula (1944), ato I. Calígula justifica a Hélicon o desejo da lua: precisa de algo demente que não seja deste mundo.
Il y a dans les hommes plus de choses à admirer que de choses à mépriser
Encerramento de La Peste (1947), narrado por Rieux. Veredito sobre os homens depois da peste: mais a admirar que a desprezar.
Il vient toujours un temps où il faut choisir entre la contemplation et l'action. Cela s'appelle devenir un homme
Dos Carnets I (1935-1942). Há sempre um momento em que é preciso escolher entre contemplação e ação. Isso se chama tornar-se homem.
Il n'y a qu'un problème philosophique vraiment sérieux: c'est le suicide
Primeira frase de Le Mythe de Sisyphe (1942). Camus reabre a filosofia a partir da pergunta sobre se a vida vale ou não a pena ser vivida.
Il n'y a pas d'amour de vivre sans désespoir de vivre
De L'Été à Alger (1939, em Noces), recolhido depois em L'Été (1954). Não há amor de viver sem desespero de viver — os dois afetos são inseparáveis.
I would rather live my life as if there is a God and die to find out there isn't, than live as if there isn't and die to find out there is
Frase viralizada em internet apologética cristã atribuída a Camus. Sem fonte primária. Variante popular da Aposta de Pascal, incompatível com o ateísmo declarado de Camus.
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos
Frase amplamente atribuída a Fernando Pessoa no Brasil — é apócrifa. Autor real: Fernando Teixeira de Andrade, professor brasileiro, em poema O Medo: o Maior Gigante da Alma.
Há metafísica bastante em não pensar em nada
De O Guardador de Rebanhos V, Alberto Caeiro (Athena nº 4, jan 1925). Anti-metafísica do heterônimo bucólico de Pessoa.
Great novelists are philosopher-novelists who write in images instead of arguments
Frase atribuída a Camus mas formulada por John Cruickshank em Albert Camus and the Literature of Revolt (1959), comentário do crítico — não citação direta.
Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim
Da carta a Adolfo Casais Monteiro (13 jan 1935). Pessoa narra o nascimento dos heterônimos em êxtase de escrita: trinta poemas a fio, em pé, em êxtase indefinível.
Fiction is the lie through which we tell the truth
Frase atribuída a Camus em redes sociais. Origem real: paráfrase de Picasso sobre arte como mentira que faz perceber a verdade (The Arts, 1923).
Eu sou do tamanho do que vejo e não, do tamanho da minha altura
Do poema VII de O Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro (Athena nº 4, jan 1925). A medida do sujeito é o que ele percebe.
Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida
Verso de Pedra Filosofal, atribuído por vezes a Pessoa. Autor real: António Gedeão (heterônimo do cientista Rómulo de Carvalho).
Don't walk in front of me, I may not follow. Don't walk behind me, I may not lead. Just walk beside me and be my friend
Frase amplamente atribuída a Camus, sem fonte primária. Primeira aparição é de dezembro de 1971 — onze anos depois da morte de Camus em 1960.
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce
Verso de abertura de O Infante, em Mensagem (1934). Tornou-se aforismo nacional em Portugal sobre a relação entre vontade, imaginação e realização.
Come chocolates, pequena! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria
De Tabacaria, Álvaro de Campos (1928). Parêntese da menina dos chocolates — o segundo trecho mais citado do poema, depois do Não sou nada.
Aujourd'hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas
Primeira frase de L'Étranger (1942). Em três linhas Camus estabelece o desligamento afetivo de Meursault que organizará todo o romance.
Au printemps, Tipasa est habitée par les dieux
Abertura de Noces à Tipasa (1939). Tipasa na primavera, habitada pelos deuses — abertura lírica do humanismo solar argelino de Camus.
Au milieu de l'hiver, j'apprenais enfin qu'il y avait en moi un été invincible
De Retour à Tipasa, ensaio em L'Été (1954). Frase frequentemente citada errado como Au cœur de l'hiver — o original Gallimard usa Au milieu.
